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19° Arrondissement - La Geode (Tertúlia/dezembro de 2010)
20° Arrondissement - Le Père Lachaise (Tertúlia/outubro de 2010)
Paris, uma apresentação (Tertúlia/outubro de 2010)
Eu entro aqui... (Tertúlia/setembro de 2010)
19° Arrondissement (dezembro de 2010)
La Geode
O arquiteto Oscar Niemeyer foi responsável pelo projeto do prédio que hoje abriga a Sede do partido comunista francês.
Imagine um diafragma prestes a explodir, uma toupeira pronta para aparecer ou prisioneiros a sete palmos de uma prometida liberdade. Assim desponta parte dessa obra que se encontra no 19º arrondissement de Paris, como um símbolo do momento em que um povo surgiu e deixou suas marcas na cultura local.
Todos nós estamos neste momento marcando ou influenciando alguma coisa. Somos animais sociais, e não há maneira possível de agir para dizermos que fomos capazes de passar por aqui, em branco. Buracos negros influenciam galáxias, estrelas influenciam planetas, luas influenciam marés e governos influenciam sistemas econômicos distantes. Meteoros desenham crateras. Nós marcamos a vida de nossos amigos, de nossos inimigos, de nossa família, dos colegas, marcamos com aquilo que dizemos, que escrevemos e pela maneira como nos comportamos. Responsabilidade? Todas. Há tempos que penso duas vezes antes de jogar uma garrafa de plástico no meio do lixo orgânico.
"Se a reta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito."
(Oscar Niemeyer)
Se você vier a Paris, não se esqueça de sair da reta turística chamada Champs-Élysées para fazer um desvio fortuito até a Geode e o canal Saint-Martin, dois dos lugares interessantes de Paris que acabam ficando para depois. Lá, tanto aprender ciência – como criança – quanto sentar para ler um livro no regaço de uma sombra será possível.
E aonde quer que você vá, deixe uma boa marca.
Um passeio que ainda não fiz foi pegar um bateau nesse canal e, através de sistemas de comportas, seguir pelo rio Sena, uma correnteza desenhada com a delicadeza de uma... curva.
Por sinal, quando vier a Paris, faça curvas e mais curvas, lembrando-se de que muitas vezes nos encontramos melhor quando estamos perdidos. Paris não é exceção: possui obras que estão apenas esperando por um acidente fortuito, ou uma coragem inconsequente, para entrarem na objetiva de sua câmera.
Por sinal, faça sempre curvas. Não pegue sempre o mesmo caminho e não faça de um gesto um hábito, pois, afinal, uma das qualidades que mais admiro na vida é a possibilidade do inimaginável.
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20° Arrondissement (outubro de 2010)
Le Père Lachaise
"Is everybody in? Is everybody in? Is everybody in? The ceremony is about to begin…"
(Está todo mundo aí? Está todo mundo aí? Está todo mundo aí? A cerimônia está prestes para começar…)
Aos iniciados.
Allan Kardec, codificador do espiritismo, enterrado no cemitério Père Lachaise. James Douglas Morrison, poeta americano, enterrado no cemitério Père Lachaise. As duas tumbas mais visitadas do Père Lachaise. Uma é aquela que recebe mais flores; a outra, a que recebe mais cigarros.
The Marriage of Heaven and Hell
(O Casamento do Céu e o Inferno, William Blake)
"Without Contraries is no progression. Attraction and Repulsion,
Reason and Energy, Love and Hate, are necessary to Human existence.
From these contraries spring what the religious call Good & Evil.
Good is the passive that obeys Reason. Evil is the active springing
from Energy. Good is Heaven. Evil is Hell."
(Não há progresso sem Contrários. Atração e Repulsão,
Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana.
Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal.
Bem é o passivo que obedece à Razão. Mal, o ativo emanando
da Energia. Bem é céu. Mal, Inferno) Tradução de José Antônio Arantes.
James Douglas Morrison, um dos maiores espiritualistas do século 20. Abraçou mais o estado dionísico do que o caráter apolíneo, mas não por falta de uma crença; ele agiu, sobretudo, baseado em uma crença. Jim sabia quase como ninguém o quanto "existem mais coisas entre o céu e a terra do que julga conhecer nossa vã filosofia" (There are more things in heaven and earth...than are dreamt of in your philosophy – Hamlet, de Willian Shakespeare), ele apenas fez uso de seu livre-arbítrio.
Jim cantava:
"Cancel my subscription to the resurrection.
Send my credentials to the house of detention…"
(Cancele minha inscrição para a resurreição
Mande minhas credenciais para a casa de detenção…)
Jim recitava:
"The program for this evening is not new
You've seen this entertainment through and through
You've seen your birth your life and death
You might recall all of the rest
Did you have a good world when you died?
Enough to base a movie on?"
(O programa para esta noite não é novo
Você tem visto este entretenimento vezes e mais vezes
Você tem visto seu nascimento, sua vida e morte
Você pode lembrar de todo o resto
Você tinha um bom mundo quando você morreu?
Suficiente para basear um filme?)
Enquanto Kardec dizia (podemos ler esta frase em seu túmulo):
"Naître, mourir, renaître encore et progresser sans cesse, telle est la Loi."
(Nascer, morrer, renascer ainda e progressar sem cessar, tal é a lei.)
Não temos visto esse entretenimento sem cessar?
Não é o Umbral a casa de detenção, a quarta parte do filme?
Não é o período que antecede uma nova encarnação a quinta parte do filme?
Viver em Paris é, como em qualquer outra cidade do mundo, também não se esquecer que a morte continua sempre presente; esta morte que está em torno de nós e embaixo de nossos pés, como nas catacumbas do 14° arrondissement. "Bem aventurado aquele que vive consciente da morte" - diz um dos escritos que podemos encontrar nessas catacumbas. E Jim tinha essa consciência. Tanto é que, mesmo tendo tido uma curta existência, tentou mudar tudo: tentou deixar o rock para trás e se dedicar a ser apenas poeta. Não deu tempo. Teve tempo apenas de conhecer a terra de Rimbaud e de ser enterrado, à eternidade, ao lado de grandes nomes, nomes como o de Allan Kardec, que não julgaria nem criticaria o poeta morto, mas que lhe daria as boas-vindas num outro mundo e a sugestão para que fizesse melhor na próxima vez.
"Wake up!"
(Desperte!)
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Paris, uma apresentação (outubro de 2010)
Paris é dividida em vinte arrondissements, que se enrolam como um Escargot da Île de la Cité até o Père-Lachaise, do lugar onde os ossos mais antigos desta região foram encontrados, o berço de Paris, até a última morada de vários personagens da história mundial, ou apenas francesa.
Quero convidá-los a uma viagem por esses bairros, numa contagem decrescente; sem a pretensão de possuir informações inéditas, mas com o intuito de falar sobre os lugares que mais me têm atraído aqui e, com isso, desenvolver certas ideias.
Mas falemos um pouco mais do todo antes de esmiuçarmos.
A cidade de Deauville é conhecida como o vigésimo primeiro arrondissement de Paris, por ser o destino de fim de semana de muitos parisienses. Fica a cem quilômetros da capital e possui praias maravilhosas, apesar de suas águas frias.
Paris é também dividida em duas margens: a Rive Gauche, margem sul do rio Sena, e a Rive Droite, margem norte do mesmo rio. Eu vivo há três anos no segundo arrondissement. O ventre de Paris ficava no primeiro arrondissement, um mercado que alimentava toda a cidade e que foi imortalizado por Balzac.
De D'Artagnan até o Corcunda de Notre Dame, de Napoleão até a ocupação nazista, do obelisco oferecido pelo Egito até os cavalos roubados da Basilica di San Marco – esses, agradeço, há tempos restituídos e substituídos por cópias.
Trinta e sete pontes, Bateaux Mouches, bibliotecas municipais, museus e bicicletas para uso público; um universo sem fim; hoje, meu lar.
20º Arrondissement
Père-Lachaise é uma obra-de-arte e um jardim, sem o lado sinistro habitual que encontramos nos cemitérios.
Alguns de seus habitantes:
Colette 1873-1954
Escritora, autora da série Claudine, chantre des bêtes: La Chatte, Dialogues de bêtes...
Gioacchino Rossini 1792-1868
Compositor de óperas : O Barbeiro de Sevilha, Guilherme Tell... Seu corpo foi transladado para a Itália en 1887.
Jim Morrison 1943-1971
Cantor, compositor do grupo The Doors e poeta; uma das tumbas mais visitadas do cemitério.
Héloïse et Abélard
Amantes lendários do século XII.
Camille Pissarro 1830-1903
Pintor impressionista : la Place; amigo de Monet, de Renoir e de Cézanne.
Miguel-Angel Asturias 1899-1974
Escritor e diplomata, prêmio Nobel da Literatura em 1967, autor do Monsieur le Président e do Pape Vert.
Vincenzo Bellini 1801-1835
Compositor de A Sonâmbula e de Norma. Assim como Rossini, seu corpo foi transferido para a Itália.
Frédéric Chopin 1810-1849
Pianista virtuoso e compositor de origem polonesa, ele escreveu sobretudo para o piano: polonesas, valsas, mazurkas, prelúdios...
Théodore Géricault 1791-1824
Pintor romântico, autor do célebre Radeau de la Méduse.
Jane Avril 1868-1943
Dançarina do Moulin-Rouge, imortalizada por Toulouse-Lautrec.
Gustave Doré 1832-1883
Dessenhador e pintor, ilustrou mais de 120 livros, inclusive Les Contes drolatiques de Balzac.
Dominique Ingres 1780-1867
Pintor, defensor da tradição neo-clássica em frente aos românticos, como testemunha a Grande Odalisca, no Louvre.
Molière 1622-1673 et La Fontaine 1621-1695
Dois dos maiores nomes da literatura do século XVII.
Benjamin Constant 1767-1830
Escritor, autor de Adolphe e homem político, hostil a Napoleão e chefe do parti libéral sous la Restauration.
Sarah Bernhardt 1844-1923
Inesquecível intérprete de l'Aiglon d'Edmond Rostand e de La Dame aux camélias de Dumas filho.
Allan Kardec 1804-1869
Fundador da doutrina do espiritismo e autor de livros espíritas. Sua tumba é uma das mais visitadas e das mais floridas do Père-Lachaise.
Yves Montand 1921-1991
Autor e cantor.
Honoré de Balzac 1799-1850
Autor de Eugénie Grandet, do Père Goriot e de vários outros romances.
Eugène Delacroix 1798-1863
Grande pintor romântico.
Georges Bizet 1838-1875
Compositor de l'Arlésienne e de Carmen.
Marcel Proust 1871-1922
Autor de A la recherche du temps perdu.
Guillaume Apollinaire 1880-1918
Poeta.
Oscar Wilde 1854-1900
Autor do romance O Retrato de Dorian Gray.
Gertrude Stein 1874-1946
Americana, instalada em Paris desde 1903, reuniu ao torno dela um grupo de escritores e pintores, tais como Hemingway. Picasso, Matisse...
Amedeo Modigliani 1884-1920
Pintor italiano.
Edith Piaf 1915-1963
Intérprete: la Vie en rose, Non, je ne regrette rien, Milord...
Henri Gabriel Salvador 1917-2008
Cantor, compositor e guitarrista de jazz français. Há um rumor de que a canção Dans mon île serviu de inspiração a João Gilberto no momento da criação da Bossa Nova.
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Eu entro aqui... (setembro de 2010)
Pensei em escrever meu primeiro texto para Tertúlia sentado à uma das mesas do restaurante Deux Magots. Teria sido uma ótima maneira de agradecer pelo convite que me fora feito: "você será nosso correspondente de Paris". Entretanto, como a globalização também trouxe seu lado negativo, preferi começar discordando de tudo aquilo que ela tem feito a certos templos franceses.
Lá se fora a época em que um escritor podia viver aqui com três dólares diários; quer dizer, poder ainda pode, mas não acredito que os pombos do Jardin de Luxembourg transmitiam as doenças que correríamos o risco de pegar hoje. Graças aos preços de uma cidade para turistas, três dólares não nos dão nem mais o direito de ficar à espera de uma mesa na Brasserie Lipp, e um bœuf que leva o nome de um tal escritor no Closerie des Lilas custa quarenta euros. Com isto, um dos meus escritórios de eleição passou a ser este restaurante da cadeia Malongo, um fast-food dos cafés, onde costumo ficar com uma taça de cappuccino vazia durante horas.
No início, confesso que desejei frequentar o Café de Flore, mas, com o tempo, comecei a tomar consciência de que é preferível gastar meus euros com um bom jantar do que acreditar que esses lugares serão capazes de melhorar meu estilo.
50 Rue Saint-André des Arts.
Um dia frutífero para mim funciona assim: está fazendo sol, as pessoas procuram as famosas terrasses para seus aperitivos, para serem vistas; eu entro aqui, descubro um ambiente tranquilo, compro minha cafeína, escolho uma das mesas do fundo, coloco meus fones de ouvido e permaneço escrevendo por mais de três horas, interrompendo-me apenas para comprar um expresso.
De qualquer forma, escreverei sobre os lugares pelos quais grandes poetas passaram, onde inesquecíveis músicos moraram ou editores trabalharam, pois uma coisa não mudou em Paris: continua sendo uma das cidades mais perfeitas para escritores, cujos imóveis continuam transpirando o sentimento que fez Rimbaud passar uma estação no inferno e Jean Valjean dar sopa aos pobres, acompanhado ou não de toda esta geração perdida de turistas.
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