Textos
Index
A Água da Vida (dezembro de 2009)
As Vinhas de Paris (Bonjour Brasil/outubro de 2009), en français
O Pequeno Carioca (Bonjour Brasil/agosto de 2009), en français
Bye Bye Johnny (Bonjour Brasil/julho de 2009), en français
Classe, de Blandine Keller (Bonjour Brasil/julho de 2009), en français
O Infinito (junho de 2009)
AF447 Rio-Paris (Bonjour Brasil/junho de 2009), en français
Tragédia no Salão do Livro (Bonjour Brasil/junho de 2009), en français
A mão de Deus é, em fato, francesa (Bonjour Brasil/maio de 2009), en français
Don Quixote Ecologista (abril de 2009)
Oração de um quase Ex-alcóolatra II (fevereiro de 2009)
A Água da Vida (dezembro de 2009)
- Meu filho - meu pai disse-me enquanto amarrava a ponta de uma corda naquele gargalo - aqui dentro você encontrará aquilo que procura.
- Eu...
- Deixe-me terminar.
Abaixei o braço e segui seus movimentos, com a esperança de que aquilo fosse brincadeira. Não era.
- Aqui dentro está o antes, o agora e o depois. Aqui dentro está a sua paz.
- Eu... - era impossível resistir. Meus lábios estavam secos.
- Escute.
Meu pai puxou a corda com força, segurando a garrafa com a outra mão. Ela permaneceu atacada.
- Sei que isto pode estar-lhe parecendo incompreensível, mas confie em mim. Você é a pessoa mais valiosa que eu tenho no mundo, e eu desejo apenas o seu bem.
Meu pai levantou-se, e eu dei um passo para trás. Ele era o homem mais alto que eu conhecia. O mais alto e... o mais injusto...
- Mas...
Senti vontade de avançar em sua direção e de tentar arrancar a garrafa de suas mãos, de me lançar sobre ele e de gritar. Senti vontade de sair dali correndo, de mudar de nome e de amaldiçoar a vida. Senti até mesmo vontade de puxar-lhe a corda e de estraçalhar aquela transparência no chão, esparramando toda a água que eu tanto queria em vão. Se eu não a podia ter naquele momento, não a desejaria mais. Senti vontade de muito, senti vontade de tudo, contudo eu confiava em meu pai e estava mesmo apaixonado por aquele líquido.
Meu pai lançou a outra ponta da corda por cima de uma estrela e puxou-a, levantando a garrafa acima de sua cabeça. Depois, ele amarrou a segunda ponta da corda no mesmo gargalo e deu-me a certeza de que ele calculara o mínimo de corda que necessitava para o fazer.
Ele afastou-se, orgulhoso, e sorriu para o pingente. Sentiu que tinha feito um bom trabalho. Ele olhou para mim e também sorriu, mas seu novo sorriso significava um sentimento diferente.
Eu olhei para a água pendurada e coloquei-me por debaixo dela. A luz da lua tocava-lhe e criava luzes coloridas por todo o deserto. Eu estiquei o braço e tentei alcançá-la, mas não o consegui. Coloquei-me nas pontas dos pés e tentei de novo alcançá-la, mas ainda não o consegui. Olhei para o meu pai e vi que ele não estava mais sorrindo.
Ele começou a caminhar para o horizonte, olhou para trás, sorriu mais uma vez e disse:
- Tudo o que você precisa fazer, meu filho, é crescer. Apenas crescer.
E partiu.
Eu olhei de novo para a água e recuei. O universo pareceu-me grande demais. Muito tempo. Teria de esperar muito tempo.
Enfim, pensei:
O tempo que for preciso.
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As Vinhas de Paris (outubro de 2009)
Foi um verão maravilhoso, e tenho de aceitar que ele terminou. Tenho de voltar a escrever. Não é que eu tenha algo contra escrever durante o bom tempo, pelo contrário, adoro escrever numa esplanada, mas tive meses tão plenos que me esvaziei por completo. Dei tudo de mim. Não para a literatura diretamente, mas para a vida, para esta mesma vida que me ajuda a escrever quando o corpo cansa e eu me sento de novo na frente de uma folha em branco.
Se não estou escrevendo, estou vivendo, se não vivo, não posso escrever.
Amei rever as areias de Paris Plage.
Andei de Velib.
Fiz pic-nic na beirada do rio Sena.
Admirei o interior do Hotel de Ville no dia do patrimônio.
Perdi-me durante a Nuit Blanche.
Bateau Mouche de dia. Bateau Mouche de noite.
Sábado, fomos a Montmartre ajudá-los a dar fim a toda aquela vinha.
A noite estava agradável, e todas as pessoas resolveram ir conosco. A Rua Azaïs transformou-se num vagão de metrô na hora do rush. Mas valeu a pena. Sempre vale. Tomamos um vinho e comemos um presunto cru. Vimos os fogos de artifício explodindo a poucos metros de nós e um cachorro querendo fugir. Seu dono tentava em vão acalmá-lo. Também vimos uma estrangeira que se perdeu de sua companhia e um jovem a entornar vinho sobre outras pessoas. Vimos ostras, enchidos, queijos e doces. Vimos toda uma vida que começa a fazer parte daquilo que penso de Paris. Paris é mesmo uma festa.
Também estudei durante o verão. Java, Inglês, ASP, Grego, JavaScript e outros idiomas que podem abrir meus horizontes, tanto os pessoais quanto os profissionais. Recebi minha mãe por um mês e meio e recepcionei meu sobrinho que veio estudar na universidade Paris Huit. Teatro. Andei, andamos muito, pois minha mãe marcou num mapa tudo o que caminhamos e Paris transformou-se num emaranhado de linhas roxas e vermelhas. Acho que ela conseguiu partir daqui conhecendo Paris mais do que eu, apesar de ter sido eu a ficar aqui com a cara de mais satisfeito. Aconchego de mãe continua sendo o melhor refresco.
Voltei a fazer teatro e voluntariei-me para dar aulas de computador no Pari's de Faubourgs.
Também conheci Provins e estive na Suíça, quando comi num restaurante gastronômico chamado Trois Tours. Sete pratos divinos e muito caro, o que agradeço a minha sogrinha.
E também tive meu lado entretenimento. Vi a final nacional do Dîner Presque Parfait e alegrei-me com a vitória do Gregory. Vi clássicos e menos clássicos do cinema francês e ando vendo Koh-lanta, o meu substituto para o Pekin Express.
Quando fiz tudo isso? Nos últimos dois meses, durante minha ausência. Quero viver para a literatura, mas a literatura não é apenas escrever e tenho de ganhar a vida. Tenho de terminar meus próximos livros e não tenho todo o tempo disponível que gostaria. Além disso, dependo das correções finais português-francês de minha esposa, quem também anda trabalhando muito e a quem eu muito agradeço por todo o esforço.
E não sei se estarei aqui no próximo verão, nunca sabemos o que iremos beber amanhã, mas posso dizer que vivo aqui mil anos por dia e que Paris já faz parte de mim. E que já tenho feito ótimas colheitas.
Paris, je t'aime. Santé.
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Les Vignes de Paris
Ce fut un merveilleux été, et je dois accepter qu'il est finit. Je dois retourner à écrire. Non que j'ai quelque chose contre le fait d'écrire alors que le soleil brille, bien au contraire, j'adore écrire sur une terrasse, mais j'eus des mois tant remplis que je me suis complètement vidé. J'ai tout donné de moi. Pas pour la littérature directement mais pour la vie, pour cette même vie qui m'aide à écrire quand le corps est fatigué et que je m'assieds à nouveau en face d'une feuille en blanche.
Si je ne suis pas en train d'écrire, je suis en train de vivre, si je ne vis pas, je ne peux pas écrire.
J'ai aimé revoir le sable de Paris Plage.
J'ai fait du Velib.
J'ai improvisé des pique-niques au bord de la Seine.
J'ai admiré l'intérieur de l'Hôtel de Ville durant le jour du patrimoine.
Je me suis perdu pendant la Nuit Blanche.
Bateau Mouche de jour. Bateau Mouche de nuit.
Samedi, nous sommes allés à Montmartre pour aider à en finir avec toute cette vigne.
La nuit fut agréable, et le tout Paris résolu y aller avec nous. La rue Azaïs devint un wagon de métro à l'heure du rush. Mais cela en valu la peine. Tout ce qu'on fait vaut toujours la peine. Nous avons bu du vin et mangé du saucisson. Nous vîmes les feux d'artifice éclater à côté de nous et un chien à vouloir s'en échapper. Son propriétaire essaya en vain de le calmer. Nous vîmes aussi une étrangère qui perdit ses amis et un adolescent qui renversa du vin sur un groupe de personnes. Nous vîmes des huîtres, de la charcuterie, du fromage, des friandises. Nous vîmes toute une vie qui commence à faire partie de ce que je connais de Paris. Paris est vie, Paris est vraiment une fête.
J'étudiai aussi durant cet été. Java, Anglais, ASP, Grec, JavaScript et d'autres langues susceptibles d' ouvrir mes horizons, tant personnels que professionnels. Je reçus ma mère pendant un mois et demi et je réceptionnai mon neveu qui vient étudier à l'université de Paris Huit. Théâtre. Je marchai, nous marchâmes beaucoup, preuve marquée par ma mère sur un plan de ville qui devint au final une confusion de lignes rouges entrecroisées. Je crois qu'elle connut Paris plus que moi, même si c'est moi qui resta le plus satisfait. Câlins de mère restent le meilleur des réconforts.
Je retournai à faire du théâtre et je m' inscris comme bénévole pour donner des leçons d'informatique au Pari's des Faubourgs.
Je connus aussi Provins et alla en Suisse, où je mangeai dans un restaurant gastronomique appelé Les Trois Tours. Sept plats divins et très chers, ce dont je remercie ma belle-mère.
Et j'eus aussi mon côté divertissement. Je vis la finale du Dîner Presque Parfait et je me régala avec la victoire de Grégory. Je vis des classiques et des moins classiques du cinéma français et je continue à suivre Koh-Lanta, mon substitut de Pékin Express.
Quand je fis tout ça? Ces derniers deux mois, pendant mon absence. Je veux vivre pour la littérature, mais la littérature n'est pas juste écrire et je dois gagner ma vie. Je dois finir mes prochains livres et je n'ai pas tout le temps disponible que je voudrais. De plus, je dépends des corrections finales du portugais pour le français faites par ma compagne, qui travaille aussi beaucoup et que je remercie chaleureusement pour cet effort.
Je ne sais pas si je serai ici l'été prochain, on ne sait jamais ce qu'on boira demain, mais je peux dire que je vis ici mille ans par jour et que Paris fait déjà partie de moi. Pour ma part, j'ai déjà fait d'excellentes vendanges.
Paris, je t'aime. Santé.
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O Pequeno Carioca (agosto de 2009)
Pela terceira vez, recebi uma destas caixas de presente para escolher um restaurante onde comer e confesso que me senti receoso. De graça, tudo é bom, mas calma lá. Nas outras duas vezes, depois de encontrar estabelecimentos que não quiseram aceitar o meu vale, de ver caras que não se mostraram empolgadas com a ideia de eu pagar a conta com um cheque-presente, acabei por me sentir pedindo algum favor. Como funcionam as negociações de publicidade desses produtos, não sei, não sei nem tão pouco o quanto de percentagem que cada um recebe por cada troca; no final, com minhas escolhas, acabei sendo bem servido, mas não foi para falar sobre esse assunto que comecei a escrever este texto.
Desta vez, tinha como opções diversas atividades e, diante das hipóteses de guiar uma Ferrari, de fazer um curso de mergulho no lago Léman, de algumas aventuras menos emocionantes e de outras mais relaxantes, acabei decidindo por realizar um dos sonhos mais antigos do homem: receber um batismo como piloto.
Você é uma daquelas pessoas que adoram consoles de jogo? Você comprou um daqueles super joysticks para colocar na frente do seu computador? Para se sentir realmente pilotando um caça, um Boeing? Esqueça. O que vivi lá em cima não tem nada a ver com a sua poltrona. Não tem nada a ver com a montanha-russa espacial da Disney, a qual eu vi lá de cima. Eu estou falando de pilotar um avião, cara! Pilotar um avião! Já havia feito um curso de paraquedismo em Portugal, em Évora, mas ter tido o controle de um Cesna foi uma sensação à parte.
Vai ser sopa, antecipei. Chego lá em cima, tiro umas fotos e o instrutor me deixa sentir as turbulências durante uns cinco minutos.
Lognes. Fui de RER e andei mais ou menos dois quilômetros e meio.
- Bem - o instrutor iniciou o briefing - quando chegarmos a sessenta nós por hora, você deverá puxar o manche suavemente para trás. Você deverá mantê-lo um pouco puxado até alcançarmos mais ou menos os dois mil pés de altitude. Depois, você contornará a Disneyland e retornará para pousar o avião.
"Este senhor aqui sabe que a primeira vez que eu faço isto?"
Jean-Claude, à primeira vista, pareceu-me carrancudo, mas, após abandonarmos a pista, compreendi que o motivo de sua aparente distância era que EU ainda vivia num outro mundo. Eu ainda era um não iniciado. Ele mudou de semblante comigo após meus primeiros gritos de euforia e sorriu de meus comentários de uma forma que me fez parecer que ele estava no lugar mais seguro do mundo, apesar de ser eu a estar teoricamente pilotando o avião.
O monomotor sacudiu um pouco por causa da turbulência, os fones de ouvido distanciaram-me do inconforto que havia sentido outrora por causa do ronco do motor. Olhei para baixo e assisti terrenos e casas desfilando, olhei para o horizonte, vi a torre Eiffel ao fundo, senti um frio no estômago a cada massa de ar quente que encontramos e cogitei a possibilidade de restituir-lhe o comando. Já estava de bom tamanho. Resisti, voei em paralelo a uma auto-estrada, segui a mesma, tive de ter mais atenção por causa de um helicóptero que estava levantando voo, realinhei o aparelho, admirei o castelo da Cinderela, pousei.
- Merci, Santo Exupéry! - disse, arrancando-nos mais sorrisos.
Claro que Jean-Claude controlou o rádio, os pedais e deu o toque de mestre na hora do pouso, o que agradeço.
Dura só o tempo de espera para se andar numa montanha russa, mas sai menos caro do que comprar um videogame. Assim, com ou sem esses cheques-presentes, tente, eu recomendo. Ouse dedicar dois anos de sua vida para tirar uma licença como piloto se esse for o seu sonho, ou faça-o apenas uma vez para viver essa experiência. Existe algo lá em cima que nos recorda o quanto a vida é passageira e que muda a perspectiva que temos de nossa existência. E, se essa aventura nos permite ter o ponto de vista que um dia o Santos Dumont teve de Paris, melhor ainda.
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Le Petit Carioca
Pour la troisième fois, j'ai reçu un de ces coffrets cadeaux avec lequel on peut choisir un restaurant et j'avoue que je me suis senti mitigé. Gratuit tout est bon, mais attention. Les deux premières fois, après avoir rencontré des établissements qui n'ont pas voulu accepter mon bon, après avoir vu des visages dépités à l'idée de me voir payer l'addition avec un chèque-cadeau, j'ai fini par me sentir demandant une faveur. J'ignore comment marche les négociations de publicité pour ces produits, je ne le sais pas, je ne sais même pas quel pourcentage chacun reçoit pour chaque échange; au final, avec mes choix, j'ai fini par être bien servi, mais bref, ce n'est pas pour discuter de ce sujet que j'ai commencé à écrire ce texte.
Cette fois, j'avais comme options divers activités. Face à l'hypothèse de conduire une Ferrari, de faire un cours de plongé dans le Lac Léman, des aventures moins émotionnantes et d'autres plus relaxantes, j'ai fini par décider de réaliser l'un des plus vieux rêves de l'homme: j'allais faire un baptême comme pilote.
Peut-être êtes-vous l'une de ces personnes qui aiment les consoles de jeux? Vous avez peut-être un jour acheté l'un de ces joysticks pour installer face à votre ordinateur? Pour se sentir vraiment pilotant un avion de combat, un Boeing? Oubliez. Ce que j'ai vécu là-haut n'a effectivement rien à voir avec votre fauteuil. Rien à voir non plus avec la montagne russe spatiale de Disney, celle que j'ai vu de là-haut. Je suis en train de parler de piloter un avion, mon ami! Piloter un avion! J'avais déjà fait un cours de parachutisme au Portugal, à Evora, mais avoir eu le contrôle d'un Cesna a été une sensation vraiment à part.
Cela va être facile, avais-je anticipé. Arrivé là-haut, je ferai des photos et l'instructeur me laissera sentir les turbulences pendants quelques minutes.
Lognes. J'y suis allé en RER et j'ai encore marché plus ou moins deux kilomètres et demie.
- Bien - l'instructeur commença le briefing - quand nous arriverons à soixante noeuds par heure, tu devras tirer le manche doucement vers toi. Tu devras le garder ainsi jusqu'à ce que nous arrivions à plus ou moins deux mille pieds d'altitude. Après, tu contourneras Disneyland et tu retourneras poser l'avion.
"Oh, le monsieur ici sait que c'est la première fois que je fais ça?"
A première vue Jean-Claude me sembla antipathique; mais, après avoir quitté la piste de décollage, je compris que le motif de son apparente distance était le fait que MOI je vivais encore dans un autre monde. J'étais encore un non-initié. Il changea de semblant avec moi dès mes premières démonstrations d'euphorie et sourit de mes commentaires de telle manière qu'il me sembla alors me trouver dans le lieu le plus sûr du monde, même si c'était pourtant moi qui pilotais théoriquement l'avion.
L'appareil nous secoua un peu à cause de quelques turbulences, le casque sur mes oreilles m' isolait de l'inconfort que j'avais senti autrefois en raison du bruit du moteur. Je regardai en bas et je vis des terrains et des maisons défiler, je regardai l'horizon, je vis la tour Eiffel au fond, je sentis un froid dans l'estomac à chaque masse d'air chaud que nous trouvâmes et je cogitai la possibilité de lui rendre les commandes. C'était déjà pas mal. Je résistai néanmoins, je volai en parallèle à une autoroute, je la suivis, j'eus besoin de concentrer encore plus d'attention à cause d'un hélicoptère qui était en train de décoller, je réalignai l'appareil, j'admirai le château de Cendrillon, je nous posai.
- Merci, Saint Exupéry! - dit-je, nous arrachant encore d'avantage de sourires.
Bien sûr, Jean-Claude était là pour contrôler la radio, les pédales, il était là pour donner la touche de maître au moment de se poser, ce dont d'ailleurs je le remercie.
Cela n'aura duré que le temps d'une file d'attente pour dévaller une montagne russe, mais revient moins cher que l'achat d'un vidéo-game. Ainsi, avec ou sans ces coffrets-cadeaux merveilleux, essayez, je vous le recommande. Osez dédier deux ans de votre vie pour passer votre licence de pilote si cela a toujours été l' un de vos rêves, ou faites-le seulement une fois pour vivre cette expérience. Il y a quelque chose là-haut qui nous rappelle combien la vie est courte et qui change la perspective que nous avons de la vie. Et, si cette aventure nous permet d'avoir le même point de vue qu'un jour Santos Dumont1 eut de Paris, c'est encore mieux.
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Bye Bye Johnny (julho de 2009)
Eis o inverno de nosso contentamento...
Após cinquenta anos de carreira, Johnny Hallyday despediu-se dos palcos.
Roberto Carlos comemorou meio século de Jovem Guarda.
Triste por ver que a festa estava chegando ao fim, Michael Jackson morreu, aos cinquenta anos de idade.
Não vi o Johnny nem o Rei, mas vi os fogos de artifício a partir da ponte Richard, digo, Alexandre III. Meia hora de cores e explosões que partiram da própria torre e também do meu bolso, para comemorarem cento e vinte anos com estilo e com uma pergunta musical na cabeça de todos: quem virá a seguir, para ocupar o lugar vazio?
The rock is dead and the dream is over. Henri Salvador, o avô da Bossa Nova, assistiu a tudo a partir do Père-Lachaise, e estamos ficando com demasiado espaço livre no disco do nosso computador. E não adianta comprar CD original, não adianta nem mesmo fazer download ilegal, o passado é conhecido, e o futuro eu quero ver, pois fazer o Moonwalker não vai trazer de volta o que tivemos de bom nos últimos 50 anos.
E que não venha alguém tentando copiar os ídolos de até então, que não apareça um gajo à minha porta com as mesmas três notas, escalas, ou com pequenas rimas. Nas rádios, é raro escutar algo revolucionário, e continuamos precisando de um som novo, de algo que rompa com tudo e que esteja preocupado em dizer que Liberdade, Igualdade e Fraternidade não é apenas um slogan para se enforcar a segunda-feira.
Il suffira d'une étincelle
D'un mot d'amour pour
Allumer le feu
Allumer le feu
Et faire danser les diables et les dieux
Allumer le feu
Allumer le feu
Bastará uma faísca
Uma palavra de amor para
Acender o fogo
Acender o fogo
E fazer dançar os diabos e os deuses
Acender o fogo
Acender o fogo
Aliás, o Rock nunca fora contra o sistema, ele sempre fora a sua criança mimada, contudo, deixando, hoje, a adolescência, não temos nem mais necessidade das editoras: a internet está aí, os sites para disponibilizar vídeos estão aí, o público tem escolhido aquilo que as gravadoras querem e não mais o contrário.
De qualquer forma, tendo gostado ou não de suas canções, indiferente às raízes de suas músicas, à máquina comercial, obrigado Roberto Carlos Braga e Jean-Philippe Smet. Obrigado Michael. Obrigado Henri. Vocês foram grandes. Agora, que venham os próximos.
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
Bye Bye Johnny
Voici l'hiver de notre plaisir...
Après cinquante ans de carrière, Johnny Hallyday dit au revoir à la scène.
Roberto Carlos vient de fêter un demi-siècle de Jovem Guarda1.
Triste de voir la fête toucher à sa fin, Michael Jackson est décédé, à l'âge de cinquante ans.
Je n'ai vu ni Johnny ni le Roi Roberto, mais j'ai vu les feux d'artifice à partir du pont Richard, je veux dire, Alexandre III. Une demi-heure de couleurs et d'explosions qui partirent directement de la tour et aussi de mon porte-feuille, pour fêter cent vingt ans avec style et avec une question musicale dans la tête de tous: qui est-ce qui viendra remplir ces places laissées désormais vides?
The rock is dead and the dream is over. Henri Salvador, grand-père de la Bossa Nova, assista à tout cela depuis le Père-Lachaise et de notre côté, nous voilà avec trop d'espace libre sur les disques durs de nos ordinateurs. On a beau acheter des CD originaux , on a beau faire des download illégaux, le passé est connu et j'attends de voir le futur, parce que même si on se lance à faire un pas de Moonwalker, ça ne ramènera pas tout ce qu'on a eu de bon durant ces cinquante dernières années.
Et que personne n'essaie de copier les idoles de jusqu'alors, que n'apparaisse pas un type à ma porte avec les mêmes trois notes, échelles, ou avec de médiocres petites rimes. A la radio il est rare d'entendre quelque chose de révolutionnaire et nous continuons à avoir besoin de nouveaux sons, quelque chose qui rompe avec tout, nous rappelant que Liberté, Egalité et Fraternité n'est pas juste un slogan pour s'offrir un week-end prolongé.
Il suffira d'une étincelle
D'un mot d'amour pour
Allumer le feu
Allumer le feu
Et faire danser les diables et les dieux
Allumer le feu
Allumer le feu
D'ailleurs, le Rock ne fut jamais contre le système, il fut toujours son enfant capricieux; néanmoins, aujourd'hui, en laissant l'adolescence derrière, nous n'avons même plus besoin des maisons d'éditions: l'internet est là, les sites sont là pour mettre les vidéos sur le marché, le public choisi ce que les producteurs veulent et non plus le contraire.
De quelque manière, ayant aimé ou non ses chansons, indifférent aux racines de ses musiques, à la machine commerciale, merci Roberto Carlos Braga et Jean-Philippe Smet. Merci Michael. Merci Henri. Vous fûtes de grands artistes. Maintenant que viennent les prochains.
Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno
E que tudo mais vá pro inferno
Je veux juste que tu me réchauffes cet hiver
Et que tout le reste aille à l'enfer
Et que tout le reste aille à l'enfer
Classe, de Blandine Keller (julho de 2009)
Fui ao correio mais próximo de meu apartamento e, na saída, diante de um trabalho de colagem, fiquei sabendo que Émile Zola, Alexandre Dumas (pai e filho), Stendhal e o poeta André Chenier haviam sido meus vizinhos e que o jornal Aurore havia publicado o famoso discurso "J'accuse" a poucos metros de meu lar.
Não sou pessoa de puxar conversa com estranhos, mas, como uma senhora lia comigo aquele cartaz, deixei escapar que eu também era um escritor do segundo arrondissement, colocando-me com audácia ao lado dessas grandes referências da literatura francesa.
- Eu também - confiou-me ela - todavia, eu habito no décimo.
- Então, volte para o seu bairro!
Estou brincando, não foi isso que eu lhe disse.
Lá estávamos nós reunidos, a família Dumas, Zola, Stendhal, Chenier e nós dois, para eu começar a falar sobre o meu último livro e para ela começar a explicar-me um pouco de sua mais importante obra, Classe, a qual virou peça de teatro e a qual peguei emprestado dois dias depois na biblioteca de meu quarteirão, graças à curiosidade que os seus comentários me inspiraram.
Entre os lugares onde apresentaram a peça está Lausanne, cidade onde morei.
Para começar, quero dizer que fui surpreendido, pois, imaginando encontrar apenas um trabalho de caráter psicológico, descobri um texto acessível e com uma escritura de romper fronteiras, com largos espaços que saíram vitoriosos de uma feroz batalha contra as esperadas pontuações. Classe, de Blandine Keller, uma aula de literatura para alunos de um sexto ano contada como uma sessão de jazz inesperada, uma partitura sem barras, tendo como principal melodia a Odisseia de Ulisses, a navegar tão livre quanto apenas a mente divagante de uma criança pode ser. A única regra presente: as normas de comportamento dentro de uma sala de aula.
É impossível citar tudo o que um livro quer dizer ou afirmar com certeza qual foi a principal intenção de seu autor, mas poderei sempre dizer aquilo que eu senti ao lê-lo, como um ciclope imperfeito, cujo único olho é o resultado de sua visão particular do mundo.
Blandine Keller provou-me mais uma vez que há vida além do mundo que conhecemos, fora da fortaleza troiana das dispendiosas publicidades e das grandes distribuições. Talvez seja até mesmo uma boa ideia, aliás, esconder o seu livro dentro de um Cavalo de Troia e esperar que ele seja levado para dentro, que ele seja achado inofensivo, para que as pessoas tenham a oportunidade de conhecer essa história sem a necessidade de um encontro casual dentro de uma agência do correio.
Depois, o livro fará o resto.
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Classe, de Blandine Keller
Je m'étais rendu au bureau postal le plus proche de mon appartement et c'est à la sortie que j'appris, en face d'un panneau de collage, qu'Émile Zola, Alexandre Dumas (père et fils), Stendhal et le poète André Chenier furent un jour mes voisins et que le journal l'Aurore avait publié le fameux discours "J'accuse" à quelques mètres de chez moi.
Je ne suis pas spécialement du genre à engager la conversation avec des inconnus, mais comme une dame lisait au même moment cette affiche, j'ai laissé échapper que j'étais moi aussi un écrivain du deuxième arrondissement, me plaçant avec audace à côté de ces grandes références de la littérature française.
- Moi aussi - confia-t'elle - par contre, j'habite le dixième.
- Alors, retournez dans votre arrondissement!
Trêve de plaisanterie, ce n'est pas ce que je lui dit.
Nous étions là réunis, la famille Dumas, Zola, Stendhal, Chenier et nous deux, alors j'ai commencé à parler de mon dernier livre et elle a commencé à m'expliquer un peu de son oeuvre majeure, Classe, qui est devenue une pièce de théâtre et que j'ai été emprunter deux jours après à la bibliothèque de mon quartier, grâce à la curiosité que ses commentaires m'avaient inspiré.
Parmis les endroits où ont été présenté la pièce figure Lausanne, ville où j'ai habité.
D'abord, je dirais avoir été surpris : imaginant trouver juste un travail de caractère psychologique, j'ai découvert un texte accessible et une écriture qui rompt les frontières, avec de larges espaces qui sortent victorieux d'une féroce bataille contre les attendues ponctuations. Classe, de Blandine Keller, une leçon de littérature pour élèves de sixième, racontée comme une session de jazz inattendue, une partition sans barres ayant comme principale mélodie l'Odyssée d'Ulysse naviguant, aussi libre que seul l'esprit rêveur d'un enfant peut l'être. L'unique règle présente: les normes de comportement dans une salle de classe.
Il serait impossible de citer tout ce qu'un livre veut dire ou de certifier quel fut la principale intention de son auteur, mais je pourrai toujours dire ce que j'ai ressenti en le lisant, comme un cyclope imparfait dont l'unique œil serait le résultat de sa vision particulière du monde.
Blandine Keller m'a prouvé une nouvelle fois qu'il y a de la vie hors du monde que nous connaissons, hors de la forteresse troyenne des coûteuse publicités et des grandes distributions. Peut-être serait-ce une bonne idée, d'ailleurs, de cacher son livre dans un Cheval de Troie et d'attendre qu'il soit porté dans la forteresse, qu'il soit jugé inoffensif, et que le public ait l'opportunité de connaître cette histoire sans la nécessité d'une rencontre fortuite dans un bureau de poste.
Après, le livre fera le reste.
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O Infinito (junho de 2009)
Antônio atravessou a Rua Nossa Senhora de Copacabana e parou diante de Maria Pilar.
– Eu te amo. – ele disse.
Maria Pilar deu dois passos para trás e sorriu, e sei que foi por ter sentido certo nervosismo.
Não podia ser verdade. Ela não poderia deixar que aquilo acontecesse. Era uma mulher independente e não poderia permitir que agitassem o mar tranquilo de sua existência.
Ela olhou para trás e correu até a esquina, entrando no primeiro táxi livre que conseguiu.
– Para onde, madame? – o taxista perguntou-lhe.
– Para longe daqui.
O taxista dirigiu quase durante meia-hora e parou a viatura a pedido dela. Ela pagou-lhe a corrida, saiu do táxi e partiu, e o motorista ficou ali, a observar as costas bordadas daquele vestido vermelho. Ele questionou-se sobre o que é que lhe tinha acontecido, mas logo ele olhou de novo para frente e voltou a dar atenção ao seu serviço. Trabalhava na praça havia mais de vinte anos e já havia visto de tudo, inclusive punks como aquele, a pedir-lhe que o levasse até o aeroporto, dizendo-lhe que estava com pressa. Todos sempre estavam com pressa. O punk pagou o novo valor marcado no taxímetro, saiu do fusca e foi para o portão de embarque, procurando a fila da companhia com a qual ia viajar. Ele deu para a funcionária o seu passaporte, ela olhou a página da foto, ela folheou algumas páginas e ela perguntou à sua colega se o chefe delas havia chegado. Sua colega disse que sim, que ele estava falando com o comandante do avião, que lhe estava pedindo para levar um urso de pelúcia a uma sobrinha que morava na cidade para onde aquele voo estava indo. O capitão sorriu, pegou a sacola e entrou no aparelho, sentando-se ao lado do co-piloto, um jovem que fora tratado com todo amor e carinho por sua mãe, a empregada mais antiga daquela padaria alemã. E como ela amava aquilo. Ela lançou a bola de farinha sobre a grande mesa, e a violência do ato lançou farinha para todos os lados, assustando o gato, que saiu da cozinha, correndo, pela porta traseira. Susto maior, todavia, ficou para o pato, que vendo o felino aparecer no quintal bateu as asas e pousou em cima do poleiro. A velha porta do poleiro caiu, a galinha saltou, um cão não muito longe ladrou, e o carteiro mais idoso daquela cidade temeu por sua segurança e resolveu entregar primeiro as cartas da casa seguinte, a do seu amigo de infância. Ainda devia-lhe uma cerveja por causa da última aposta que haviam feito, mas tinha a certeza de que ia recuperar a sua perda no próximo jogo, pois, afinal, não era à toa que sua equipe havia pagado tanto para ter Arnold, o zagueiro de mais de dois metros de altura que dava medo aos adversários apenas com sua presença. Diziam que ele era o diabo, diziam que sua estatura era tão grande quanto aquela de uma indesejável turbina eólica, mas ele não respondia mal a ninguém por isso. Apesar de as turbinas estarem criando tantas discussões controversas sobre a paisagem daqueles Alpes, a grande parte daquela população estava a favor das energias renováveis. Apenas precisavam ter algumas precauções, pensavam, já que todos sabiam que aqueles modernos engenhos eram perigosos para os pássaros que passavam por ali a migrar, para o Einstürzende, símbolo daquela gente e daquela comunidade, que tão heroicamente fora criada por Fritz Heins, pai de cinco filhos, avô de vinte netos e bisavô de trinta bis-netos. E não era verdade que amara seu filho mais velho mais do que todos os outros, e sua esposa sempre soubera disso. Fritz amara a todos os filhos da mesma maneira, mesmo quando comprava munições especialmente para o primogênito, no depósito do tio Manfred, cujo descendente estava agora doente, no hospital Virchow-Klinikum, sendo carinhosamente tratado pela enfermeira Ana Rodrigues Von Kurows, brasileira, filha de um senhor também alemão. Ele havia partido para o Brasil no meio do século XX e de lá nunca mais havia voltado, e ele e sua esposa ficaram tristes com a partida da caçula para a Europa, mas estavam orgulhosos de ela ter desejado conhecer a terra de seus antepassados e, agora, como forma de pedir-lhe proteção aos céus, estavam mensalmente dando comida e roupas para a paróquia onde moravam. Não era muito, mas aquele pouco já fazia a alegria de alguns, de Helena da Cruz, mãe de três filhos, prima do Zeca Gregório, o porteiro do prédio Santo Cristo, no qual Antônio morava.
– Olá, seu Antônio. O senhor tem uma visita. – disse Zeca Gregório, abrindo-lhe a grade da portaria.
– Visita?
Ele olhou para a sala de espera de seu prédio e viu Maria Pilar de pé, sorrindo para ele. Antônio caminhou em sua direção e levantou a sobrancelha.
– Antônio...
– Maria....
E eles beijaram-se.
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AF447 Rio-Paris (junho de 2009)
Este não é o lugar para discutir sobre as suposições que estão fazendo, sobre a recuperação dos corpos, a busca aos destroços, colocar a lista de passageiros e da tripulação, disponibilizar fotos ou contar a história de algum comissário de bordo ou de alguma aeromoça em particular. Se você veio até aqui à procura de informação ou de sensacionalismo, veio ao lugar errado. Este espaço será utilizado hoje para fazer uma homenagem, para abraçar através das palavras aqueles que partiram e aqueles que ficaram, certo de que todos nós fomos atingidos, todos nós estamos ligados, e ninguém está livre das alegrias como das desgraças da vida.
Sei que é difícil compreender e achar uma lógica para um acidente de tamanhas proporções. Não o tentarei explicar. Sei que é difícil acalentar uma criança que ficou órfã, uma mulher que ficou viúva e uma mãe que está desesperada, não há nada pior do que perder um filho, mas, ao mesmo tempo, me permitam dizer o quanto acredito que, no meio de todo este aparente caos, tudo tem um sentido e que ninguém está desamparado.
A fé é um dom que não é dado a todos, e sinto-me abençoado por tê-lo. Não pertenço a alguma igreja, a alguma crença, não tenho dogmas, apenas vícios, mas não acredito que tudo isso que tenho dentro da cabeça e do coração faça parte de um mero acaso. Acredito que "eles" estão bem, que nós também ficaremos bem, que todos nós nos reencontraremos lá e que voltaremos cá.
Àqueles que estavam no voo AF447 Rio-Paris e àqueles que não estavam no voo AF447 Rio-Paris:
- Comandante!
- Sim, marujo.
- Acabamos de aterrissar.
- Ótimo! Recolha as turbinas! Sabe onde estamos?
- No fundo do mar!
- Exatamente! Avise a todos que o voo correu como planejado.
- Senhor...
- Sim?
- A tripulação e os passageiros...
- O que têm eles?
- Eles estão à espera do senhor. Eles querem agradecê-lo.
- Ora, marujo. Diga-lhes que eu apenas fiz o meu trabalho...
- Eles insistem.
- Bem, se é assim, diga-lhes que eu irei ter com eles.
- Sim, senhor.
- E, marujo?
- Sim, comandante?
- Bom trabalho.
- Obrigado, comandante.
O avião abriu as portas e todos saíram do aparelho. Jamais haviam visto país tão belo. Em fato, jamais alguém havia tido a oportunidade de ver tal país. E, observados com curiosidade por peixes e baleias que se aproximaram, homens, mulheres e crianças começaram a bailar ao som das estrelas do mar.
- Olhem! - gritou um - Um carrossel de cavalos-marinhos!
"O azul profundo do céu correspondia ao verde fundo do oceano."
(Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo)
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AF447 Rio-Paris
Ce n'est pas le lieu pour délibérer sur les suppositions qui sont en train d'être faites, sur comment s'organise le repêchage des corps, la recherche des débris, l'établissement de la liste des passagers et de l'équipage, publier des photos ou encore raconter l'histoire d'un commissaire de bord ou d'une hôtesse de l'air en particulier. Celui qui serait venu ici à la recherche d'information ou de sensationnalisme se retrouverait à la mauvaise place. Cet espace sera utilisé aujourd'hui pour rendre un hommage, pour étreindre à travers quelques mots les êtres chers qui sont partis et ceux qui sont restés, conscient que nous avons tous été atteints, nous sommes tous liés et personne n'est exempté des joies comme des disgrâces de la vie.
Je sais qu'il est difficile de comprendre et de trouver une logique dans un accident d'une telle proportion. Je n'essayerai pas de l'expliquer. Je sais qu'il est difficile de réconforter un enfant resté orphelin, une femme devenue veuve ou une mère désespérée, il n'y a rien de pire que perdre un fils, mais, en même temps, permettez-moi de dire combien je crois qu'au milieu de cet évident chaos, tout a un sens et personne n'est abandonné.
La foi est un don qui n'est pas donné à tout le monde, et je me sens béni de l'avoir. Je n'appartiens à aucune église, à aucune croyance, je n'ai pas de dogmes, seulement des vices, mais je ne crois pas que tout ce que j'ai dans la tête et dans le cœur fasse partie d'un simple hasard. Je crois qu"ils" vont bien, que nous aussi continuerons bien, que nous nous retrouverons tous là-bas, quelque part, et que nous retournerons tous ici.
A ceux qui étaient dans le vol AF447 Rio-Paris, et à ceux qui n'étaient pas dans le vol AF447 Rio-Paris:
- Commandant!
- Oui, matelot.
- Nous venons juste d'atterrir.
- Parfait! Rassemble les turbines! Sais-tu où nous sommes?
- Au fond de la mer!
- Exactement! Informe tout le monde que le vol s'est passé comme prévu.
- Monsieur...
- Oui?
- L'équipage et les passagers...
- Qu'est-ce qu'ils ont?
- Ils vous attendent. Ils veulent vous remercier.
- Oh, matelot. Dis-leur que j'ai juste fait mon travail...
- Ils insistent.
- Bien, si c'est ainsi, dis-leur que j'irai me joindre à eux.
- Oui, monsieur.
- Eh, matelot?
- Oui, comandant?
- Bon travail.
- Merci, commandant.
L'avion ouvrit ses portes et tous sortirent de l'appareil. Jamais ils n'avaient vu un pays aussi beau que celui là. En faites, jamais quelqu'un n'avait eu l'occasion de voir un tel pays. Et, observés avec curiosité par les poissons et les baleines qui s'étaient approchés, hommes, femmes et enfants commencèrent à danser au son des étoiles de mer.
- Regardez! - cria quelqu'un - Un carrousel de chevaux marins!
"Le bleu profond du ciel répondait au vert profond de l’océan."
(Les travailleurs de la mer, Victor Hugo)
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Tragédia no Salão do Livro (junho de 2009)
Apresentações e agradecimentos feitos, esta tarefa pareceu-me mais difícil do que eu antes pensei. Não quero chegar aqui e apenas preencher um espaço vazio, a coluna vazia do escritor Carretoni, mas, sim, sentir que estamos indo na boa direção. Para onde exatamente vamos, não sei e sei que nunca chegaremos lá, mas, apesar de conscientes de que a perfeição continuará fugindo de nossos dedos, não poderemos jamais parar de caminhar.
Dia 16 de maio vi um filme encantador. Ele chamava-se "O brasileiro que vivia em Paris e que foi ao Salão do Livro da América Latina com a esperança de ver um de seus escritores preferidos, Luis Fernando Veríssimo, e que não chegou a tempo." O final do filme não foi tão encantador quanto o resto, mas portou uma nova lição a este autor.
Foi um problema de horas. Estava ciceroneando visitas de Portugal e na correria anotei o horário errado. Não anotei, quis decorá-lo e confundi-me com o horário da Adriana Lisboa. Voilá. Veríssimo já havia partido. Contudo, por quê? Por que me ter sentido tão frustrado por não ter conseguido encontrá-lo? O que eu lhe teria dito, afinal, se lhe tivesse encontrado?
Nada. Absolutamente nada. Teria-lhe sorrido, dito meu nome para que o escrevesse numa das primeiras páginas de um de seus livros e teria imaginado me estar sendo contaminado por seu talento, através de sua áurea, de seus átomos, como uma gripe ABC que é transmitida apenas entre escritores.
- Vá trabalhar, meu jovem. - é o que ele me teria dito.
As bancadas estavam cheias de livros em português, em espanhol e em francês. Procurei os meus, mas não os encontrei. Os copos estavam prontos para os cocktails, as línguas presentes me lembravam de casa, e Adriana Lisboa estava de pé, cercada. Esperei que ela tivesse a sabedoria necessária para reconhecer os amigos e admiradores entre os aproveitadores, e isso deve ter sido um tipo de compaixão entre cariocas - não entre maçons - mesmo que eu já tenha dito não me considerar como tal.
José Muñoz estava sentado dedicando livros, Sébastien Lapaque e Carlos Salem também. E eu lá, com um vazio no peito, após ter perdido a oportunidade única de ver um de meus gurus literários.
Demorei duas horas para esquecer o ocorrido. Ainda bem. Jovem, teria demorado meses. A vida continuou, e eu tomei mais consciência de que eu tenho mesmo é de escrever. Esse é o caminho que me levará até a perfeição inalcançável que busco, não aquele no qual preciso ter um contato imediato com um pronome pessoal do primeiro grau.
- Obrigado, Luis.
Todavia, fica aqui exposta minha admiração.
Enfim, era também a Noite dos Museus, e fui ver a exposição de fotografias controversas na Biblioteca Nacional. Muito interessante, por sinal. Antes, havia pensado que encontraria apenas fotos chocantes, só que, na verdade, foi uma amostra feita com fotos que marcaram a história (se alguém ainda quiser vê-las, aconselho uma visita ao museu da fotografia em Lausanne, na Suíça, pois muitas fotos vieram de lá).
Mas, se, por acaso, você, Luis, estiver lendo esta mensagem, por favor, entre em contato comigo. Na próxima vez que vier a Paris, telefone-me, apareça na minha porta, aborde-me na rua, grite, pois, mesmo sabendo que você não precisa de alguém para lhe oferecer um bourbon no Harry's Bar, eu também sou gaúcho e prometo não lhe vampirizar. Sei que tudo que preciso está dentro de mim, mas penso que você deve ser um cara interessante pacas pra conversar.
Tudo bem. Nem tão pouco sou gaúcho, mas e daí?
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Tragédie au Salon du Livre
Présentations et remerciements faits, la tâche qui m'a été donnée m'a semblée plus difficile à accomplir que ce que j'avais d'abord pensé. Je ne veux pas débarquer ici et seulement remplir un espace vide, la colonne vide de l'auteur Carretoni, mais au contraire sentir que nous allons dans la bonne direction. Par où exactement nous allons, je l'ignore, et je sais que nous n'allons jamais arriver là, mais, malgré la conscience que la perfection continuera à nous filer entre les doigts, nous ne pourrons jamais arrêter notre cheminement.
Le 16 mai j'ai vu un film charmant. Il avait pour titre « le Brésilien qui vivait à Paris et qui s'est rendu au Salon du Livre de l'Amérique latine dans l'espoir de voir un de ses auteurs préférés, Luis Fernando Veríssimo, et qui n'est pas arrivé à temps. » La fin du film n'a pas été aussi charmante que le reste, mais elle a porté une nouvelle leçon à cet auteur.
Ce fut un problème d'heures. J'improvisais un rôle de guide-touristique pour des visites du Portugal et, dans la course, j'ai noté l'horaire erroné. Je n'ai pas noté, j'ai voulu le retenir de mémoire et j'ai confondu avec l'horaire d'Adriana Lisboa. Voilà. Veríssimo était déjà parti. Néanmoins, pourquoi ? Pourquoi me suis-je senti aussi frustré de ne pas avoir réussi à le rencontrer ? Que lui aurais-je dit, après tout, si je l'avais trouvé ?
Rien. Absolument rien. Je lui aurais souri, lui aurait donné mon prénom pour qu'il l'écrive sur l'une des premières pages d'un de ses livres, lui aurait serré la main et imaginé d'être contaminé par son talent, à travers son aura, ses atomes, comme une grippe ABC qui ne se transmettrait qu'entre écrivains.
- Va travailler, jeune homme. - m'aurait-il dit.
Les bancs étaient couverts de livres en portugais, en espagnol et en français. J'ai cherché les miens, mais sans les trouver. Les verres étaient prêts pour le cocktail, les langues qui m'entouraient me faisaient me sentir chez moi, et Adriana Lisboa était debout, cerclée de gens. J'ai souhaité qu'elle aie la sagesse nécessaire pour reconnaître les amis et admirateurs des profiteurs; cela a dû être un trait de compassion entre cariocas - non entre franc-maçon - même si j'ai déjà dit ne pas me considérer comme tel. José Muñoz était assis et dédicaçait des livres, Sébastien Lapaque et Carlos Salem également. Et moi au milieu de tout ça, avec un vide dans la poitrine, après avoir perdu une occasion unique de rencontrer l'un de mes gourou littéraires.
Il m'aura fallu deux heures pour oublier l'évènement. Encore bien ! Jeune, il m'aurait fallu des mois. La vie a continué, et j'ai pris plus conscience que ce que je dois faire est écrire. C'est ce chemin-là qui me portera jusqu'à la perfection inatteignable que je recherche, et non celui où j'ai besoin d'une rencontre avec un pronom personnel du premier type.
- Merci, Luis.
Néanmoins, j'aurais démontrer ici mon admiration.
Enfin,ce soir là avait aussi lieu la nuit des musées et j'ai été voir l'exposition Controverses à la Bibliothèque Nationale. Qui fut très intéressante, je dois dire. Je m'attendais à trouver seulement des photos choquantes, mais en vérité j'ai pu découvrir des photos qui ont marqué l'histoire (si quelqu'un veut les voir, je conseille une visite au musée de la photographie à Lausanne, en Suisse, car beaucoup de photos venaient de là).
Et si par hasard toi, Luis, tu lis ce message, s'il te plaît, entre en contact avec moi. La prochaine fois que tu viendras à Paris, téléphone-moi, pointe-toi à ma porte, aborde-moi dans la rue, crie, même si je sais bien que tu n'as pas besoin de quelqu'un pour t'offrir un bourbon au Harry's Bar, je suis aussi gaucho (1) et je te promets de ne pas essayer de voler ton talent. Je sais que tout ce dont j'ai besoin se trouve à l'intérieur de moi, mais je pense que tu dois être une personne très intéressante avec laquelle converser.
Bon. Je ne suis même pas gaúcho, et après?
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A mão de Deus é, em fato, francesa (maio de 2009)
Meu pai era descendente de italianos e de sírios (ou de libaneseses; nem ele sabia). Minha mãe é descendente de portugueses e espanhóis. Meu pai nasceu no Mato Grosso do Sul, e minha mãe em Minas. Eu nasci no Rio de Janeiro, em 1971 e, em 98, parti do Brasil. Vivi seis anos em Lisboa, um pouco na Itália, dois anos na Suíça e estou há mais de um ano em Paris. Tirei a nacionalidade portuguesa, minha esposa deu-me o direito à nacionalidade italiana e, se eu vivesse cinco anos na Suíça, o que eu poderia fazer, se o quisesse, teria a nacionalidade helvética. Vou dizer que sou carioca? Que sou mesmo brasileiro? Nem pensar. Não posso. Sou um cidadão do mundo, não um documento, apesar de que não posso viver sem meu pão de queijo.
Sofro pelas misérias do Brasil e alegro-me pelas conquistas verde-amarelas, mas também lamento a fome na África e regojizo-me pelas vitórias francesas. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mas sejam eles, esses direitos, na Europa, na África ou na Venezuela. Admiro o virtuosismo na capoeira, amo as esculturas de Rodin e lambo os dedos ao comer um escargot. Sou viciado em croissant, acho que ele seria melhor com recheio de catupiri e fico de boca aberta ao ouvir um CD da Edith ou da Elis.
Elis Piaf / Edith Regina. Johnny Hallyday deveria ter feito músicas com o Raul Seixas. Godard deveria ter dirigido um filme com Cassilda Becker. Victor Hugo contado a história de Tiradentes, e Delacroix pintado uma cena de Umbanda. O Cristo Redentor, afinal, tem a cabeça e as mãos esculpidas na França.
Mas nada do que eu diga aqui deve ser considerado como uma verdade absoluta. Um escritor não possui verdades absolutas, ele possui apenas um ponto de vista, ele é um prisma, um ser que transforma aquilo que viu e sentiu no cristal de suas experiências pessoais e que escreve suas conclusões e dúvidas para as outras pessoas; e, se ele realmente amou a primeira vez que fez isso, nunca mais conseguiu parar. Foi assim comigo, e é para isso que estou aqui, para compartilhar este amor com vocês.
Pretendo falar sobre a atualidade, sobre movimentos culturais, sobre filmes, livros, sobre a minha vida, a vida dos outros (não muito mal) e sobre ideias que nascem na minha cabeça prontas para partirem. E, claro, também espero ler aquilo que vocês têm a dizer, nesta minha tentativa contínua de purificar o vidro do qual sou feito.
Enfim, agradeço a oportunidade de estar aqui, participando deste já reconhecido veículo de comunicação. Espero mostrar-me à altura da confiança que me depositaram e encontrar novos e duradouros amigos.
Vamos a isto...
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La main de Dieu est, en fait, française
Mon père était descendant d'Italiens et de Syriens (ou Libanais, lui-même ne le savait pas). Ma mère est descendante de Portugais et d'Espagnols. Mon père est né à Mato Grosso do Sul et ma mère à Minas Gerais. Pour ma part je suis né à Rio de Janeiro en 1971, et en 1998 je suis parti du Brésil. J'ai vécu six ans à Lisbonne, quelques mois en Italie, deux ans en Suisse et j'habite Paris depuis un peu plus d'un an. J'ai pris la nationalité portugaise, ma femme m'a donné le droit d'obtenir la nationalité italienne et, si je vivais cinq ans en Suisse, ce que je pourrais faire, j'aurais la nationalité helvétique. Vais-je dire que je suis carioca (1) ? Que je suis même brésilien ? Jamais. Je ne peux pas. Je suis un citoyen du monde, je ne suis pas un document, malgré le fait que je ne puisse pas vivre sans pão de queijo (2).
Je souffre pour les misères du Brésil et les conquêtes vertes-jaunes me réjouissent, mais je me lamente aussi sur la faim en Afrique, tout comme je suis heureux pour les victoires françaises. Liberté, égalité et fraternité, mais que ces droits soient en Europe, en Afrique ou au Venezuela. J'admire la virtuosité de la capoeira, j'aime les sculptures de Rodin et je me lèche les doigts en dégustant des escargots. Je suis vicié aux croissants au beurre, peut-être seraient-ils encore meilleurs tartiné de catupiry et je reste bouche bée à l'écoute d'un CD d'Edith ou de Elis.
Elis Piaf / Edith Regina. Johnny Hallyday devrait avoir fait de la musique avec Raul Seixas. Godard devrait avoir réalisé un film avec Cassilda Becker. Victor Hugo raconté l'histoire de Tiradentes, et Delacroix peint une scène d'Umbanda. Le Christ Rédempteur, après tout, a la tête et les mains sculptées en France.
Mais rien de ce que je dis là ne doit être considéré comme une vérité absolue. Un écrivain ne possède pas de vérités absolues, il possède seulement un point de vue, il est un prisme, un être qui transforme ce qu'il voit et ressent dans le cristal de ses expériences personnelles et qui écrit ses conclusions et ses doutes pour les autres personnes; et, s'il a réellement aimé la première fois qu'il a fait cela, il ne réussira plus jamais à s'arrêter. Cela en a été ainsi avec moi, et c'est pour cela que je suis ici, pour partager cet passion.
J'envisage de parler de l'actualité, des mouvements culturels, films, livres, de ma vie, celle des autres (pas trop en mal) et sur les idées qui naissent dans ma tête prêtes pour être partagées. Et, bien sur, j'espère aussi entendre ce que vous avez à dire, dans ma tentative continue de purifier le verre duquel je suis fait.
Je remercie l'opportunité d'être là, participant à ce véhicule de communication déjà reconnu. J'espère me montrer à la hauteur de la confiance qui m'a été témoignée et réussir à créer de nouvelles et durables amitiés.
Allons-y!
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Don Quixote Ecologista (abril de 2009)
Há tempos quero escrever sobre a minha aventura com turbinas eólicas no sul da França.
Depois de quatro meses procurando emprego em Lisboa, comecei a dar tiros para todos os cantos. Como havia recebido a nacionalidade portuguesa, Espanha, Inglaterra e Itália deixaram de ser apenas um sonho. Ainda estaria limitado aos meus conhecimentos informáticos, mas forçaria as fronteiras ao máximo e buscaria uma oportunidade que me fizesse aprender novas coisas. Os idiomas, por fim, começaram a não ser mais um problema, e qualquer mudança de morada, pra mim, nunca o fora.
Encontrei uma vaga para trabalhar na IBM da Bulgária e não voltei a telefonar-lhes, mandei alguns currículos para Londres, fiz uma entrevista on-line para Madrid num cyber café perto de casa, e fiquei fascinado pelo seguinte anúncio: "Contrata-se pessoa com bons conhecimentos de inglês e sem medo de altura". Claro que fiquei tentado. Pagavam bem, podia dizer que era um trabalho de ideologia e não estaria mais enclausurado dentro dum escritório. Uma foto de um moinho moderno ilustrava a oferta, chamando-me desesperadamente como a um Don Quijote legalizado.
Tudo foi muito rápido, entre entrega de documentos, tirar atestado médico e fazer entrevista em inglês, só que ainda tive de esperar dois meses para ser chamado.
Estava na Suíça, depois de ter passado o Natal e o Ano Novo empanturrando-me, quando o telefone tocou. Teria de estar dois dias depois na pequena cidade de Salles-Curan, no sul da França, a alguns quilômetros de Millau. Em fato, até o momento da chamada, não sabia ao certo onde iria trabalhar. Minha empresa tinha funcionários alocados na Grécia, na Escócia e na Turquia, e calhou-me a França.
Millau abriga a ponte mais alta do mundo, aquela da qual fizeram uma foto onde parece estar flutuando sobre as nuvens.
O TGV parou em Montpellier, fiquei contrariado por descobrir que não havia ninguém me esperando e tive de fazer outras três horas de trem para cobrir menos quilômetros. Encontrei-me com o grupo, jantamos e enchi-lhes de perguntas. Éramos quatro, sendo que dois já tinham alguma experiência.
Chegamos ao site no primeiro dia, às 6 horas da manhã e fui apresentado ao grupo de dinamarqueses, franceses e holandeses. Penso que noventa por cento das pessoas fumavam. Briefing e passei a primeira manhã inteira tentando arrancar a grade que separava os dois lugares de uma de nossas duas carrinhas da parte traseira. Um dos patrícios havia fechado as chaves dentro do compartimento. Confesso que comecei a pensar que tudo aquilo seria muito fácil e até mesmo divertido, mas não foi fácil. Descobri, depois, o que significa direito do trabalhador. Lá, não havia algum.
As jornadas eram de onze horas sem direito a pausa. Pausas eram feitas discretamente. Como é fácil de imaginar, as turbinas ficam no alto das montanhas. Tive de trabalhar durante onze horas num lugar de fortes ventos, durante o inverno, com chuva e até mesmo neve. Todo o trabalho era externo, obviamente, e o almoço era descanso de quinze a vinte minutos com a mão toda suja de lama. Usávamos o canivete de um colega, o qual era utilizado para todos os serviços mecânicos, para cortar os pães. Além disso, não havia algum bar, algum banheiro, alguma máquina de café, de água no raio de quilômetros.
Quando comecei a considerar-me com alguma experiência, a partir do dia seguinte, levei minha própria água e o meu almoço já preparado, mas, no quarto dia, descobri que ele havia partido com o carro para o mecânico e que estaria de volta apenas à noite.
- Ai o caral...
Meus colegas eram mestres na arte da retórica. Conseguiam dizer as palavras fod... e caral... em todas as situações e com variações inimagináveis. Confesso que até hoje eu ainda as falo, tamanha fora a contaminação.
Amiga, amigo, eu estava no meio dum canteiro de obras, o que você quer que eu diga? As casas haviam sido substituídas por grandes ventiladores.
Mas foi impressionante segurar uma daquelas hélices com uma corda. Eu lá embaixo, ela lá em cima, sendo encaixada no nariz, e eu procurando evitar que ela tocasse no guindaste. Disseram-me naquele momento que, se isso acontecesse, guindaste, turbina e hélice cairiam como brinquedinhos de isopor sobre a minha cabeça. E eu sozinho, segurando aquele fod... do caral... de milhares de euros. Eu! Só eu! Só eu contra aquele terrível dragão! - fui apenas interrompido para bancar o intérprete. Um caminhão precisava passar, e procuraram-me para dizer ao motorista, em francês, que ele teria de esperar ainda uns vinte minutos, enquanto terminavam de aparafusar a hélice.
Também tínhamos direito a uma casa de dois andares. Cada um com o seu próprio quarto, banheiro e acesso ilimitado à internet. Contudo, na primeira noite mesmo, descobrimos que estávamos no meio do nada, a internet não havia sido instalada, não tínhamos sinais pros celulares e apenas utilizaríamos aquela mansão pra dormir. E, como acréscimo, meu chefe não gostava de cozinhar. Demorei dois jantares para perceber que eu teria de chegar e jantar sujo, antes do banho, se não quisesse cozinhar pra pessoas que jamais cozinhariam para mim.
E, antes de dormir, eu ainda esticava minha mão pra fora da janela, com um frio de lascar, pra tentar pegar algum sinal no celular e pagar homing.
Na manhã do terceiro dia estava tudo branco. Ver neve ainda é sonho de muitos brasileiros, mas não há graça alguma ver às cinco horas da manhã que nevou forte e que você vai ter de trabalhar com tais condições. Nesse dia, aliás, uma hélice quebrou ao meio, enquanto a estávamos transferindo de um dos caminhões de transporte para o campo de feno. O gelo havia dado cabo de suas artérias. Sim, eu disse feno. Ao redor, apenas vacas e bois nos olhando. Acho que foi nesse dia em que um dos carros atolou e que tivemos de passar mais de uma hora tentando retirá-lo duma mistura de neve e lama.
Os dois carros que tínhamos também eram inúteis. Um estava vazando óleo, e ninguém podia sair do site. Quando saía era pra fumar um cigarro de tabela ou pra buscar algum equipamento. E comprar comida também não era fácil, pois, quando deixávamos o lugar, à noite, os mercados da pequena cidadezinha de Salles-Curan já estavam há muito fechados. Foi no segundo dia, exclusivamente, que tivemos de pedir para sair mais cedo.
- Fod...
Não pude deixar de cair na gargalhada ao saber que o meu chefe costumava jogar gatos do alto da falésia de Nazaré, e, quando perguntei aos meus colegas o que eles fariam de mais interessante com a grana que receberiam, a resposta mais inteligente que recebi foi a do outro novato, uma espécie de Sancho Pancho, de acordo com sua estatura, que disse que compraria uma nova tarântula pro seu aquário.
...
Todos peidavam durante os briefings também. Fiquei realmente decepcionado quando o grande chefe todo-poderoso, um dinamarquês de quase dois metros de altura e de cem quilos, interrompeu seu discurso e levantou a perna direita para soltar um grande peido.
- I'm sorry.
Um contêiner de 40 metros quadrados, 30 homens, cigarro que não acabava mais, tudo fechado e peidos. Eu só ficava torcendo para que aquilo acabasse logo para que eu pudesse voltar pro frio.
Em poucas palavras, a coisa funciona assim. A companhia de luz faz um buraco no chão, com todas as ligações necessárias, e a empresa montadora descarrega as três hélices, o nariz, o motor e os três tubos que formam o corpo. Monta o nariz, o motor, o nariz no motor e as pequenas partes como o elevador e as camisas das hélices, para, em seguida, colocar os três tubos em pé, o motor lá em cima e as três hélices. Se bem me lembro, cada turbina demora três semanas no máximo para estar pronta, se o tempo ajudar. E, como um campo contém sempre mais de 20 turbinas, 40, 70, enquanto um nariz está sendo montado num local, uma hélice está sendo encaixada a um nariz em um outro ponto qualquer.
Enfim... Vivi muito em pouco tempo, pois, no quarto dia, de uma forma mística, tive de abandonar aquela experiência. Importante contar antes, porém, que, na primeira noite, quando fiquei enfim sozinho no quarto, chorei e pensei desistir.
O frio era insuportável, mas não podia desistir. No segundo dia, o frio continuou a arrancar-me a pele, mas não podia desistir. O terceiro dia, no dia em que nevou, não foi o mais frio, mas não foi o menos exaustivo. No quarto dia, o frio voltou pior, e fui chamado sozinho para descarregar dois motores, embaixo da supervisão passiva de um jovem francês administrador capoeirista e de um senhor gordo apenas manipulador de equipamentos.
Apoiei a escada no primeiro motor, peguei uma pesada corrente utilizada para tal serviço e subi na primeira estrutura para esperar pelo gancho do guindaste e, nesse momento, com um vento e uma chuva fina batendo na minha cara, com os dois senhores lá embaixo decidindo qual seria o melhor lado para se aproximar com o caminhão, sentei-me e senti-me feliz, completo. Consegui não sentir frio e senti-me realmente livre. Lembro-me de ter sorrido. Sei que estava lá há pouco tempo, mas a ironia é que eu poderia ter demorado dez anos para ter tido aquela sensação e que eu acredito que foi por ter sentido aquilo que deixei de precisar continuar vivendo aquela experiência.
Deus, como me senti vivo e feliz, livre...
Para descarregar o segundo motor, quando levantei novamente a corrente para levá-la até à plataforma que fica na parte de cima do mesmo, senti meus músculos das costas rasgarem e tive a certeza de que era o fim de minha contribuição. Não tive alguma formação, não sei se aquilo foi uma reação particular de meu corpo ou se foi uma consequência óbvia diante de todo aquele frio, mas sei que não consegui mais levantar o braço sem gritar de dor, movimentar o pescoço e tive de passar a sexta-feira do meu aniversário em casa, sozinho, aproveitando, enfim, a mansão.
- Ça va? - perguntou-me o parisiense apaixonado por capoeira.
- Ça va, ça va. - menti.
Não voltei mais ao site e passei três meses recuperando-me da distensão. Ganhei uma boa grana com apenas quatro dias, mas, após alugar um carro para sair de lá, pagar um hotel para mim e para minha esposa em Montpellier, comer e comprar dois bilhetes de ônibus para Lisboa, não sobrou muito.
Valeu a pena?
Se você leu a minha crônica "Aventura Siciliana", sabe que valeu. Um mês depois arranjei um emprego em Paris e cá estou, há mais de um ano.
Mas por quê? Pra quê? Apenas pra ser capaz de dizer aquilo que eu vou dizer aqui? Também.
Considere que a vida é como uma turbina eólica girando à sua frente, rapidamente e sem alguma queda de vento. Você poderá passar a vida inteira observando-a, com receio de que as hélices lhe cortem, ou você poderá começar a aprender a não ter mais medo.
Quando você encontrar uma pessoa que desperte em você algum sentimento de amor, ou alguma situação, não deixe de tentar atravessar o que você está sentindo, no que poderá ser uma oportunidade única, através de suas hélices. Sinta, lance seus sentimentos em direção da turbina com toda sua paixão, sem mágoa, certo de que há uma grande possibilidade de que você nunca mais veja Dulcinéa. Aliás, você não é culpado de sentir.
Diga-lhe que a ama nem que seja para ser escutado por apenas um segundo, pois você terá apenas um segundo e deverá decidir com quais palavras você irá ser recordado.
- Eu te amo.
Hélice.
Hélice, hélice, hélice, folhas de pontas agudas ao vento, como lanças em riste, a atravessarem meu coração...
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Oração de um quase Ex-alcóolatra II (fevereiro de 2009)
Hoje comemoro 50 dias sem beber. Pra mim, muito.
Não estou aqui para dizer que nunca mais irei beber na vida, ou para que me vejam como algum exemplo a seguir.
Mesmo que eu nunca mais beba na vida - o que não acredito - penso que eu sempre continuarei com esta vontade, e o único exemplo que eu quero dar é aquele onde cada um deve fazer aquilo que pensa ser o melhor para si mesmo.
Há 14 anos que não fico tanto tempo sem beber.
Há 25 anos comecei a beber; um quarto de século bebendo.
Tenho meus próprios motivos.
Não quero beber para esquecer que a desigualdade habita o mundo,
mas quero ser capaz de ser feliz e agir mais, consciente de que ela existe.
Não quero beber para menosprezar meus problemas,
mas quero ter forças para consertar aquilo que pode ser consertado e aceitar aquilo que não o pode ser.
Não quero beber para conseguir ser mais sexy e engraçado durante um jantar romântico,
mas quero que a mulher com quem eu esteja consiga ver essas qualidades em mim e aceite meus defeitos.
Não quero beber para ser um cara divertido e amado e,
para isso, procuro recordar-me que Charles Spencer Chaplin nunca bebeu.
Não quero ter de ouvir coisas do tipo: Que isso... Um copinho não faz mal a ninguém…,
como se "não beber" fizesse de alguém uma pessoa anormal.
E não quero beber pra fazer mal ao meu corpo, pois, afinal, só tenho este.
Estou cansado deste atalho pro início,
deste Jogo das Cobras e das Escadas onde sempre voltamos pra casa primeira.
...
A possibilidade de me verem bebendo num futuro próximo é enorme,
mas quero deixar claro aqui o que desejo.
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