Menu principal:

André Carretoni


Aller au contenu

2009

Textos

Index

As Vinhas de Paris (Bonjour Brasil/outubro de 2009)
O Pequeno Carioca (Bonjour Brasil/agosto de 2009)
Bye Bye Johnny (Bonjour Brasil/julho de 2009)
Classe, de Blandine Keller (Bonjour Brasil/julho de 2009)
AF447 Rio-Paris (Bonjour Brasil/junho de 2009)
Tragédia no Salão do Livro (Bonjour Brasil/junho de 2009)
A mão de Deus é, em fato, francesa (Bonjour Brasil/maio de 2009)
Don Quixote Ecologista (abril de 2009)
Oração de um quase Ex-alcóolatra II (fevereiro de 2009)

As Vinhas de Paris (outubro de 2009)

Foi um verão maravilhoso, e tenho de aceitar que ele terminou. Tenho de voltar a escrever. Não é que eu tenha algo contra escrever durante o bom tempo, pelo contrário, adoro escrever numa esplanada, mas tive meses tão plenos que me esvaziei por completo. Dei tudo de mim. Não para a literatura diretamente, mas para a vida, para esta mesma vida que me ajuda a escrever quando o corpo cansa e eu me sento de novo na frente de uma folha em branco.

Se não estou escrevendo, estou vivendo, se não vivo, não posso escrever.

Amei rever as areias de Paris Plage.
Andei de Velib.
Fiz pic-nic na beirada do rio Sena.
Admirei o interior do Hotel de Ville no dia do patrimônio.
Perdi-me durante a Nuit Blanche.
Bateau Mouche de dia. Bateau Mouche de noite.

Sábado, fomos a Montmartre ajudá-los a dar fim a toda aquela vinha.


A noite estava agradável, e todas as pessoas resolveram ir conosco. A Rua Azaïs transformou-se num vagão de metrô na hora do rush. Mas valeu a pena. Sempre vale. Tomamos um vinho e comemos um presunto cru. Vimos os fogos de artifício explodindo a poucos metros de nós e um cachorro querendo fugir. Seu dono tentava em vão acalmá-lo. Também vimos uma estrangeira que se perdeu de sua companhia e um jovem a entornar vinho sobre outras pessoas. Vimos ostras, enchidos, queijos e doces. Vimos toda uma vida que começa a fazer parte daquilo que penso de Paris. Paris é mesmo uma festa.

Também estudei durante o verão. Java, Inglês, ASP, Grego, JavaScript e outros idiomas que podem abrir meus horizontes, tanto os pessoais quanto os profissionais. Recebi minha mãe por um mês e meio e recepcionei meu sobrinho que veio estudar na universidade
Paris Huit. Teatro. Andei, andamos muito, pois minha mãe marcou num mapa tudo o que caminhamos e Paris transformou-se num emaranhado de linhas roxas e vermelhas. Acho que ela conseguiu partir daqui conhecendo Paris mais do que eu, apesar de ter sido eu a ficar aqui com a cara de mais satisfeito. Aconchego de mãe continua sendo o melhor refresco.

Voltei a fazer teatro e voluntariei-me para dar aulas de computador no
Pari's de Faubourgs.

Também conheci Provins e estive na Suíça, quando comi num restaurante gastronômico chamado Trois Tours. Sete pratos divinos e muito caro, o que agradeço a minha sogrinha.

E também tive meu lado entretenimento. Vi a final nacional do
Dîner Presque Parfait e alegrei-me com a vitória do Gregory. Vi clássicos e menos clássicos do cinema francês e ando vendo Koh-lanta, o meu substituto para o Pekin Express.

Quando fiz tudo isso? Nos últimos dois meses, durante minha ausência. Quero viver para a literatura, mas a literatura não é apenas escrever e tenho de ganhar a vida. Tenho de terminar meus próximos livros e não tenho todo o tempo disponível que gostaria. Além disso, dependo das correções finais português-francês de minha esposa, quem também anda trabalhando muito e a quem eu muito agradeço por todo o esforço.


E não sei se estarei aqui no próximo verão, nunca sabemos o que iremos beber amanhã, mas posso dizer que vivo aqui mil anos por dia e que Paris já faz parte de mim. E que já tenho feito ótimas colheitas.


Paris, je t'aime. Santé.

Voltar

O Pequeno Carioca (agosto de 2009)

Pela terceira vez, recebi uma destas caixas de presente para escolher um restaurante onde comer e confesso que me senti receoso. De graça, tudo é bom, mas calma lá. Nas outras duas vezes, depois de encontrar estabelecimentos que não quiseram aceitar o meu vale, de ver caras que não se mostraram empolgadas com a ideia de eu pagar a conta com um cheque-presente, acabei por me sentir pedindo algum favor. Como funcionam as negociações de publicidade desses produtos, não sei, não sei nem tão pouco o quanto de percentagem que cada um recebe por cada troca; no final, com minhas escolhas, acabei sendo bem servido, mas não foi para falar sobre esse assunto que comecei a escrever este texto.

Desta vez, tinha como opções diversas atividades e, diante das hipóteses de guiar uma Ferrari, de fazer um curso de mergulho no lago Léman, de algumas aventuras menos emocionantes e de outras mais relaxantes, acabei decidindo por realizar um dos sonhos mais antigos do homem: receber um batismo como piloto.


Você é uma daquelas pessoas que adoram consoles de jogo? Você comprou um daqueles super joysticks para colocar na frente do seu computador? Para se sentir realmente pilotando um caça, um Boeing? Esqueça. O que vivi lá em cima não tem nada a ver com a sua poltrona. Não tem nada a ver com a montanha-russa espacial da Disney, a qual eu vi lá de cima. Eu estou falando de pilotar um avião, cara! Pilotar um avião! Já havia feito um curso de paraquedismo em Portugal, em Évora, mas ter tido o controle de um Cesna foi uma sensação à parte.

Vai ser sopa, antecipei. Chego lá em cima, tiro umas fotos e o instrutor me deixa sentir as turbulências durante uns cinco minutos.


Lognes. Fui de RER e andei mais ou menos dois quilômetros e meio.

- Bem - o instrutor iniciou o briefing - quando chegarmos a sessenta nós por hora, você deverá puxar o manche suavemente para trás. Você deverá mantê-lo um pouco puxado até alcançarmos mais ou menos os dois mil pés de altitude. Depois, você contornará a Disneyland e retornará para pousar o avião.

"Este senhor aqui sabe que a primeira vez que eu faço isto?"


Jean-Claude, à primeira vista, pareceu-me carrancudo, mas, após abandonarmos a pista, compreendi que o motivo de sua aparente distância era que EU ainda vivia num outro mundo. Eu ainda era um não iniciado. Ele mudou de semblante comigo após meus primeiros gritos de euforia e sorriu de meus comentários de uma forma que me fez parecer que ele estava no lugar mais seguro do mundo, apesar de ser eu a estar teoricamente pilotando o avião.

O monomotor sacudiu um pouco por causa da turbulência, os fones de ouvido distanciaram-me do inconforto que havia sentido outrora por causa do ronco do motor. Olhei para baixo e assisti terrenos e casas desfilando, olhei para o horizonte, vi a torre Eiffel ao fundo, senti um frio no estômago a cada massa de ar quente que encontramos e cogitei a possibilidade de restituir-lhe o comando. Já estava de bom tamanho. Resisti, voei em paralelo a uma auto-estrada, segui a mesma, tive de ter mais atenção por causa de um helicóptero que estava levantando voo, realinhei o aparelho, admirei o castelo da Cinderela, pousei.

- Merci, Santo Exupéry! - disse, arrancando-nos mais sorrisos.

Claro que Jean-Claude controlou o rádio, os pedais e deu o toque de mestre na hora do pouso, o que agradeço.


Dura só o tempo de espera para se andar numa montanha russa, mas sai menos caro do que comprar um videogame. Assim, com ou sem esses cheques-presentes, tente, eu recomendo. Ouse dedicar dois anos de sua vida para tirar uma licença como piloto se esse for o seu sonho, ou faça-o apenas uma vez para viver essa experiência. Existe algo lá em cima que nos recorda o quanto a vida é passageira e que muda a perspectiva que temos de nossa existência. E, se essa aventura nos permite ter o ponto de vista que um dia o Santos Dumont teve de Paris, melhor ainda.

Voltar

Bye Bye Johnny (julho de 2009)

Eis o inverno de nosso contentamento...

Após cinquenta anos de carreira, Johnny Hallyday despediu-se dos palcos.

Roberto Carlos comemorou meio século de Jovem Guarda.

Triste por ver que a festa estava chegando ao fim, Michael Jackson morreu, aos cinquenta anos de idade.

Não vi o Johnny nem o Rei, mas vi os fogos de artifício a partir da ponte Richard, digo, Alexandre III. Meia hora de cores e explosões que partiram da própria torre e também do meu bolso, para comemorarem cento e vinte anos com estilo e com uma pergunta musical na cabeça de todos: quem virá a seguir, para ocupar o lugar vazio?

The rock is dead and the dream is over. Henri Salvador, o avô da Bossa Nova, assistiu a tudo a partir do Père-Lachaise, e estamos ficando com demasiado espaço livre no disco do nosso computador. E não adianta comprar CD original, não adianta nem mesmo fazer download ilegal, o passado é conhecido, e o futuro eu quero ver, pois fazer o Moonwalker não vai trazer de volta o que tivemos de bom nos últimos 50 anos.

E que não venha alguém tentando copiar os ídolos de até então, que não apareça um gajo à minha porta com as mesmas três notas, escalas, ou com pequenas rimas. Nas rádios, é raro escutar algo revolucionário, e continuamos precisando de um som novo, de algo que rompa com tudo e que esteja preocupado em dizer que Liberdade, Igualdade e Fraternidade não é apenas um
slogan para se enforcar a segunda-feira.

Il suffira d'une étincelle
D'un mot d'amour pour

Allumer le feu
Allumer le feu
Et faire danser les diables et les dieux
Allumer le feu
Allumer le feu

Bastará uma faísca
Uma palavra de amor para
Acender o fogo
Acender o fogo
E fazer dançar os diabos e os deuses
Acender o fogo
Acender o fogo

Aliás, o Rock nunca fora contra o sistema, ele sempre fora a sua criança mimada, contudo, deixando, hoje, a adolescência, não temos nem mais necessidade das editoras: a internet está aí, os sites para disponibilizar vídeos estão aí, o público tem escolhido aquilo que as gravadoras querem e não mais o contrário.


De qualquer forma, tendo gostado ou não de suas canções, indiferente às raízes de suas músicas, à máquina comercial, obrigado Roberto Carlos Braga e Jean-Philippe Smet. Obrigado Michael. Obrigado Henri. Vocês foram grandes. Agora, que venham os próximos.

Só quero que você me aqueça nesse inverno
E que tudo mais vá pro inferno

E que tudo mais vá pro inferno


Voltar

Classe, de Blandine Keller (julho de 2009)

Fui ao correio mais próximo de meu apartamento e, na saída, diante de um trabalho de colagem, fiquei sabendo que Émile Zola, Alexandre Dumas (pai e filho), Stendhal e o poeta André Chenier haviam sido meus vizinhos e que o jornal Aurore havia publicado o famoso discurso "J'accuse" a poucos metros de meu lar.

Não sou pessoa de puxar conversa com estranhos, mas, como uma senhora lia comigo aquele cartaz, deixei escapar que eu também era um escritor do segundo arrondissement, colocando-me com audácia ao lado dessas grandes referências da literatura francesa.

- Eu também -
confiou-me ela - todavia, eu habito no décimo.
- Então, volte para o seu bairro!

Estou brincando, não foi isso que eu lhe disse.

Lá estávamos nós reunidos, a família Dumas, Zola, Stendhal, Chenier e nós dois, para eu começar a falar sobre o meu último livro e para ela começar a explicar-me um pouco de sua mais importante obra, Classe, a qual virou peça de teatro e a qual peguei emprestado dois dias depois na biblioteca de meu quarteirão, graças à curiosidade que os seus comentários me inspiraram.

Entre os lugares onde apresentaram a peça está Lausanne, cidade onde morei.


Para começar, quero dizer que fui surpreendido, pois, imaginando encontrar apenas um trabalho de caráter psicológico, descobri um texto acessível e com uma escritura de romper fronteiras, com largos espaços que saíram vitoriosos de uma feroz batalha contra as esperadas pontuações. Classe, de Blandine Keller, uma aula de literatura para alunos de um sexto ano contada como uma sessão de jazz inesperada, uma partitura sem barras, tendo como principal melodia a Odisseia de Ulisses, a navegar tão livre quanto apenas a mente divagante de uma criança pode ser. A única regra presente: as normas de comportamento dentro de uma sala de aula.

É impossível citar tudo o que um livro quer dizer ou afirmar com certeza qual foi a principal intenção de seu autor, mas poderei sempre dizer aquilo que eu senti ao lê-lo, como um ciclope imperfeito, cujo único olho é o resultado de sua visão particular do mundo.


Blandine Keller provou-me mais uma vez que há vida além do mundo que conhecemos, fora da fortaleza troiana das dispendiosas publicidades e das grandes distribuições. Talvez seja até mesmo uma boa ideia, aliás, esconder o seu livro dentro de um Cavalo de Troia e esperar que ele seja levado para dentro, que ele seja achado inofensivo, para que as pessoas tenham a oportunidade de conhecer essa história sem a necessidade de um encontro casual dentro de uma agência do correio.

Depois, o livro fará o resto.

Voltar

AF447 Rio-Paris (junho de 2009)

Este não é o lugar para discutir sobre as suposições que estão fazendo, sobre a recuperação dos corpos, a busca aos destroços, colocar a lista de passageiros e da tripulação, disponibilizar fotos ou contar a história de algum comissário de bordo ou de alguma aeromoça em particular. Se você veio até aqui à procura de informação ou de sensacionalismo, veio ao lugar errado. Este espaço será utilizado hoje para fazer uma homenagem, para abraçar através das palavras aqueles que partiram e aqueles que ficaram, certo de que todos nós fomos atingidos, todos nós estamos ligados, e ninguém está livre das alegrias como das desgraças da vida.

Sei que é difícil compreender e achar uma lógica para um acidente de tamanhas proporções. Não o tentarei explicar. Sei que é difícil acalentar uma criança que ficou órfã, uma mulher que ficou viúva e uma mãe que está desesperada, não há nada pior do que perder um filho, mas, ao mesmo tempo, me permitam dizer o quanto acredito que, no meio de todo este aparente
caos, tudo tem um sentido e que ninguém está desamparado.

A fé é um dom que não é dado a todos, e sinto-me abençoado por tê-lo. Não pertenço a alguma igreja, a alguma crença, não tenho dogmas, apenas vícios, mas não acredito que tudo isso que tenho dentro da cabeça e do coração faça parte de um mero acaso. Acredito que "eles" estão bem, que nós também ficaremos bem, que todos nós nos reencontraremos lá e que voltaremos cá.


Àqueles que estavam no voo AF447 Rio-Paris e àqueles que não estavam no voo AF447 Rio-Paris:

- Comandante!
- Sim, marujo.
- Acabamos de aterrissar.
- Ótimo! Recolha as turbinas! Sabe onde estamos?
- No fundo do mar!
- Exatamente! Avise a todos que o voo correu como planejado.
- Senhor...
- Sim?
- A tripulação e os passageiros...
- O que têm eles?
- Eles estão à espera do senhor. Eles querem agradecê-lo.
- Ora, marujo. Diga-lhes que eu apenas fiz o meu trabalho...
- Eles insistem.
- Bem, se é assim, diga-lhes que eu irei ter com eles.
- Sim, senhor.
- E, marujo?
- Sim, comandante?
- Bom trabalho.
- Obrigado, comandante.

O avião abriu as portas e todos saíram do aparelho. Jamais haviam visto país tão belo. Em fato, jamais alguém havia tido a oportunidade de ver tal país. E, observados com curiosidade por peixes e baleias que se aproximaram, homens, mulheres e crianças começaram a bailar ao som das estrelas do mar.

- Olhem! - gritou um - Um carrossel de cavalos-marinhos!

"O azul profundo do céu correspondia ao verde fundo do oceano."
(Os Trabalhadores do Mar, Victor Hugo)

Voltar

Tragédia no Salão do Livro (junho de 2009)

Apresentações e agradecimentos feitos, esta tarefa pareceu-me mais difícil do que eu antes pensei. Não quero chegar aqui e apenas preencher um espaço vazio, a coluna vazia do escritor Carretoni, mas, sim, sentir que estamos indo na boa direção. Para onde exatamente vamos, não sei e sei que nunca chegaremos lá, mas, apesar de conscientes de que a perfeição continuará fugindo de nossos dedos, não poderemos jamais parar de caminhar.

Dia 16 de maio vi um filme encantador. Ele chamava-se "O brasileiro que vivia em Paris e que foi ao Salão do Livro da América Latina com a esperança de ver um de seus escritores preferidos, Luis Fernando Veríssimo, e que não chegou a tempo." O final do filme não foi tão encantador quanto o resto, mas portou uma nova lição a este autor.


Foi um problema de horas. Estava ciceroneando visitas de Portugal e na correria anotei o horário errado. Não anotei, quis decorá-lo e confundi-me com o horário da Adriana Lisboa. Voilá. Veríssimo já havia partido. Contudo, por quê? Por que me ter sentido tão frustrado por não ter conseguido encontrá-lo? O que eu lhe teria dito, afinal, se lhe tivesse encontrado?

Nada. Absolutamente nada. Teria-lhe sorrido, dito meu nome para que o escrevesse numa das primeiras páginas de um de seus livros e teria imaginado me estar sendo contaminado por seu talento, através de sua áurea, de seus átomos, como uma gripe ABC que é transmitida apenas entre escritores.


- Vá trabalhar, meu jovem. -
é o que ele me teria dito.

As bancadas estavam cheias de livros em português, em espanhol e em francês. Procurei os meus, mas não os encontrei. Os copos estavam prontos para os
cocktails, as línguas presentes me lembravam de casa, e Adriana Lisboa estava de pé, cercada. Esperei que ela tivesse a sabedoria necessária para reconhecer os amigos e admiradores entre os aproveitadores, e isso deve ter sido um tipo de compaixão entre cariocas - não entre maçons - mesmo que eu já tenha dito não me considerar como tal.

José Muñoz estava sentado dedicando livros, Sébastien Lapaque e Carlos Salem também. E eu lá, com um vazio no peito, após ter perdido a oportunidade única de ver um de meus gurus literários.


Demorei duas horas para esquecer o ocorrido. Ainda bem. Jovem, teria demorado meses. A vida continuou, e eu tomei mais consciência de que eu tenho mesmo é de escrever. Esse é o caminho que me levará até a perfeição inalcançável que busco, não aquele no qual preciso ter um contato imediato com um pronome pessoal do primeiro grau.

- Obrigado, Luis.


Todavia, fica aqui exposta minha admiração.

Enfim, era também a Noite dos Museus, e fui ver a exposição de fotografias controversas na Biblioteca Nacional. Muito interessante, por sinal. Antes, havia pensado que encontraria apenas fotos chocantes, só que, na verdade, foi uma amostra feita com fotos que marcaram a história (se alguém ainda quiser vê-las, aconselho uma visita ao museu da fotografia em Lausanne, na Suíça, pois muitas fotos vieram de lá).

Mas, se, por acaso, você, Luis, estiver lendo esta mensagem, por favor, entre em contato comigo. Na próxima vez que vier a Paris, telefone-me, apareça na minha porta, aborde-me na rua, grite, pois, mesmo sabendo que você não precisa de alguém para lhe oferecer um bourbon no Harry's Bar, eu também sou gaúcho e prometo não lhe vampirizar. Sei que tudo que preciso está dentro de mim, mas penso que você deve ser um cara interessante pacas pra conversar.

Tudo bem. Nem tão pouco sou gaúcho, mas e daí?

Voltar

A mão de Deus é, em fato, francesa (maio de 2009)

Meu pai era descendente de italianos e de sírios (ou de libaneseses; nem ele sabia). Minha mãe é descendente de portugueses e espanhóis. Meu pai nasceu no Mato Grosso do Sul, e minha mãe em Minas. Eu nasci no Rio de Janeiro, em 1971 e, em 98, parti do Brasil. Vivi seis anos em Lisboa, um pouco na Itália, dois anos na Suíça e estou há mais de um ano em Paris. Tirei a nacionalidade portuguesa, minha esposa deu-me o direito à nacionalidade italiana e, se eu vivesse cinco anos na Suíça, o que eu poderia fazer, se o quisesse, teria a nacionalidade helvética. Vou dizer que sou carioca? Que sou mesmo brasileiro? Nem pensar. Não posso. Sou um cidadão do mundo, não um documento, apesar de que não posso viver sem meu pão de queijo.

Sofro pelas misérias do Brasil e alegro-me pelas conquistas verde-amarelas, mas também lamento a fome na África e regojizo-me pelas vitórias francesas. Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mas sejam eles, esses direitos, na Europa, na África ou na Venezuela. Admiro o virtuosismo na capoeira, amo as esculturas de Rodin e lambo os dedos ao comer um escargot. Sou viciado em croissant, acho que ele seria melhor com recheio de catupiri e fico de boca aberta ao ouvir um CD da Edith ou da Elis.


Elis Piaf / Edith Regina. Johnny Hallyday deveria ter feito músicas com o Raul Seixas. Godard deveria ter dirigido um filme com Cassilda Becker. Victor Hugo contado a história de Tiradentes, e Delacroix pintado uma cena de Umbanda. O Cristo Redentor, afinal, tem a cabeça e as mãos esculpidas na França.

Mas nada do que eu diga aqui deve ser considerado como uma verdade absoluta. Um escritor não possui verdades absolutas, ele possui apenas um ponto de vista, ele é um prisma, um ser que transforma aquilo que viu e sentiu no cristal de suas experiências pessoais e que escreve suas conclusões e dúvidas para as outras pessoas; e, se ele realmente amou a primeira vez que fez isso, nunca mais conseguiu parar. Foi assim comigo, e é para isso que estou aqui, para compartilhar este amor com vocês.

Pretendo falar sobre a atualidade, sobre movimentos culturais, sobre filmes, livros, sobre a minha vida, a vida dos outros (não muito mal) e sobre ideias que nascem na minha cabeça prontas para partirem. E, claro, também espero ler aquilo que vocês têm a dizer, nesta minha tentativa contínua de purificar o vidro do qual sou feito.


Enfim, agradeço a oportunidade de estar aqui, participando deste já reconhecido veículo de comunicação. Espero mostrar-me à altura da confiança que me depositaram e encontrar novos e duradouros amigos.

Vamos a isto...

Voltar

Don Quixote Ecologista (abril de 2009)

Há tempos quero escrever sobre a minha aventura com turbinas eólicas no sul da França.

Depois de quatro meses procurando emprego em Lisboa, comecei a dar tiros para todos os cantos. Como havia recebido a nacionalidade portuguesa, Espanha, Inglaterra e Itália deixaram de ser apenas um sonho. Ainda estaria limitado aos meus conhecimentos informáticos, mas forçaria as fronteiras ao máximo e buscaria uma oportunidade que me fizesse aprender novas coisas. Os idiomas, por fim, começaram a não ser mais um problema, e qualquer mudança de morada, pra mim, nunca o fora.

Encontrei uma vaga para trabalhar na IBM da Bulgária e não voltei a telefonar-lhes, mandei alguns currículos para Londres, fiz uma entrevista on-line para Madrid num cyber café perto de casa, e fiquei fascinado pelo seguinte anúncio: "Contrata-se pessoa com bons conhecimentos de inglês e sem medo de altura". Claro que fiquei tentado. Pagavam bem, podia dizer que era um trabalho de ideologia e não estaria mais enclausurado dentro dum escritório. Uma foto de um moinho moderno ilustrava a oferta, chamando-me desesperadamente como a um Don Quijote legalizado.

Tudo foi muito rápido, entre entrega de documentos, tirar atestado médico e fazer entrevista em inglês, só que ainda tive de esperar dois meses para ser chamado.


Estava na Suíça, depois de ter passado o Natal e o Ano Novo empanturrando-me, quando o telefone tocou. Teria de estar dois dias depois na pequena cidade de Salles-Curan, no sul da França, a alguns quilômetros de Millau. Em fato, até o momento da chamada, não sabia ao certo onde iria trabalhar. Minha empresa tinha funcionários alocados na Grécia, na Escócia e na Turquia, e calhou-me a França.

Millau abriga a ponte mais alta do mundo, aquela da qual fizeram uma foto onde parece estar flutuando sobre as nuvens.

O TGV parou em Montpellier, fiquei contrariado por descobrir que não havia ninguém me esperando e tive de fazer outras três horas de trem para cobrir menos quilômetros. Encontrei-me com o grupo, jantamos e enchi-lhes de perguntas. Éramos quatro, sendo que dois já tinham alguma experiência.

Chegamos ao site no primeiro dia, às 6 horas da manhã e fui apresentado ao grupo de dinamarqueses, franceses e holandeses. Penso que noventa por cento das pessoas fumavam. Briefing e passei a primeira manhã inteira tentando arrancar a grade que separava os dois lugares de uma de nossas duas carrinhas da parte traseira. Um dos patrícios havia fechado as chaves dentro do compartimento. Confesso que comecei a pensar que tudo aquilo seria muito fácil e até mesmo divertido, mas não foi fácil. Descobri, depois, o que significa direito do trabalhador. Lá, não havia algum.

As jornadas eram de onze horas sem direito a pausa. Pausas eram feitas discretamente. Como é fácil de imaginar, as turbinas ficam no alto das montanhas. Tive de trabalhar durante onze horas num lugar de fortes ventos, durante o inverno, com chuva e até mesmo neve. Todo o trabalho era externo, obviamente, e o almoço era descanso de quinze a vinte minutos com a mão toda suja de lama. Usávamos o canivete de um colega, o qual era utilizado para todos os serviços mecânicos, para cortar os pães. Além disso, não havia algum bar, algum banheiro, alguma máquina de café, de água no raio de quilômetros.


Quando comecei a considerar-me com alguma experiência, a partir do dia seguinte, levei minha própria água e o meu almoço já preparado, mas, no quarto dia, descobri que ele havia partido com o carro para o mecânico e que estaria de volta apenas à noite.


- Ai o caral...

Meus colegas eram mestres na arte da retórica. Conseguiam dizer as palavras fod... e caral... em todas as situações e com variações inimagináveis. Confesso que até hoje eu ainda as falo, tamanha fora a contaminação.

Amiga, amigo, eu estava no meio dum canteiro de obras, o que você quer que eu diga? As casas haviam sido substituídas por grandes ventiladores.

Mas foi impressionante segurar uma daquelas hélices com uma corda. Eu lá embaixo, ela lá em cima, sendo encaixada no nariz, e eu procurando evitar que ela tocasse no guindaste. Disseram-me naquele momento que, se isso acontecesse, guindaste, turbina e hélice cairiam como brinquedinhos de isopor sobre a minha cabeça. E eu sozinho, segurando aquele fod... do caral... de milhares de euros. Eu! Só eu! Só eu contra aquele terrível dragão! - fui apenas interrompido para bancar o intérprete. Um caminhão precisava passar, e procuraram-me para dizer ao motorista, em francês, que ele teria de esperar ainda uns vinte minutos, enquanto terminavam de aparafusar a hélice.

Também tínhamos direito a uma casa de dois andares. Cada um com o seu próprio quarto, banheiro e acesso ilimitado à internet. Contudo, na primeira noite mesmo, descobrimos que estávamos no meio do nada, a internet não havia sido instalada, não tínhamos sinais pros celulares e apenas utilizaríamos aquela mansão pra dormir. E, como acréscimo, meu chefe não gostava de cozinhar. Demorei dois jantares para perceber que eu teria de chegar e jantar sujo, antes do banho, se não quisesse cozinhar pra pessoas que jamais cozinhariam para mim.


E, antes de dormir, eu ainda esticava minha mão pra fora da janela, com um frio de lascar, pra tentar pegar algum sinal no celular e pagar homing.

Na manhã do terceiro dia estava tudo branco. Ver neve ainda é sonho de muitos brasileiros, mas não há graça alguma ver às cinco horas da manhã que nevou forte e que você vai ter de trabalhar com tais condições. Nesse dia, aliás, uma hélice quebrou ao meio, enquanto a estávamos transferindo de um dos caminhões de transporte para o campo de feno. O gelo havia dado cabo de suas artérias. Sim, eu disse feno. Ao redor, apenas vacas e bois nos olhando. Acho que foi nesse dia em que um dos carros atolou e que tivemos de passar mais de uma hora tentando retirá-lo duma mistura de neve e lama.


Os dois carros que tínhamos também eram inúteis. Um estava vazando óleo, e ninguém podia sair do site. Quando saía era pra fumar um cigarro de tabela ou pra buscar algum equipamento. E comprar comida também não era fácil, pois, quando deixávamos o lugar, à noite, os mercados da pequena cidadezinha de Salles-Curan já estavam há muito fechados. Foi no segundo dia, exclusivamente, que tivemos de pedir para sair mais cedo.

- Fod...


Não pude deixar de cair na gargalhada ao saber que o meu chefe costumava jogar gatos do alto da falésia de Nazaré, e, quando perguntei aos meus colegas o que eles fariam de mais interessante com a grana que receberiam, a resposta mais inteligente que recebi foi a do outro novato, uma espécie de Sancho Pancho, de acordo com sua estatura, que disse que compraria uma nova tarântula pro seu aquário.

...

Todos peidavam durante os briefings também. Fiquei realmente decepcionado quando o grande chefe todo-poderoso, um dinamarquês de quase dois metros de altura e de cem quilos, interrompeu seu discurso e levantou a perna direita para soltar um grande peido.

-
I'm sorry.

Um contêiner de 40 metros quadrados, 30 homens, cigarro que não acabava mais, tudo fechado e peidos. Eu só ficava torcendo para que aquilo acabasse logo para que eu pudesse voltar pro frio.


Em poucas palavras, a coisa funciona assim. A companhia de luz faz um buraco no chão, com todas as ligações necessárias, e a empresa montadora descarrega as três hélices, o nariz, o motor e os três tubos que formam o corpo. Monta o nariz, o motor, o nariz no motor e as pequenas partes como o elevador e as camisas das hélices, para, em seguida, colocar os três tubos em pé, o motor lá em cima e as três hélices. Se bem me lembro, cada turbina demora três semanas no máximo para estar pronta, se o tempo ajudar. E, como um campo contém sempre mais de 20 turbinas, 40, 70, enquanto um nariz está sendo montado num local, uma hélice está sendo encaixada a um nariz em um outro ponto qualquer.

Enfim... Vivi muito em pouco tempo, pois, no quarto dia, de uma forma mística, tive de abandonar aquela experiência. Importante contar antes, porém, que, na primeira noite, quando fiquei enfim sozinho no quarto, chorei e pensei desistir.

O frio era insuportável, mas não podia desistir. No segundo dia, o frio continuou a arrancar-me a pele, mas não podia desistir. O terceiro dia, no dia em que nevou, não foi o mais frio, mas não foi o menos exaustivo. No quarto dia, o frio voltou pior, e fui chamado sozinho para descarregar dois motores, embaixo da supervisão passiva de um jovem francês administrador capoeirista e de um senhor gordo apenas manipulador de equipamentos.

Apoiei a escada no primeiro motor, peguei uma pesada corrente utilizada para tal serviço e subi na primeira estrutura para esperar pelo gancho do guindaste e, nesse momento, com um vento e uma chuva fina batendo na minha cara, com os dois senhores lá embaixo decidindo qual seria o melhor lado para se aproximar com o caminhão, sentei-me e senti-me feliz, completo. Consegui não sentir frio e senti-me realmente livre. Lembro-me de ter sorrido. Sei que estava lá há pouco tempo, mas a ironia é que eu poderia ter demorado dez anos para ter tido aquela sensação e que eu acredito que foi por ter sentido aquilo que deixei de precisar continuar vivendo aquela experiência.

Deus, como me senti vivo e feliz, livre...

Para descarregar o segundo motor, quando levantei novamente a corrente para levá-la até à plataforma que fica na parte de cima do mesmo, senti meus músculos das costas rasgarem e tive a certeza de que era o fim de minha contribuição. Não tive alguma formação, não sei se aquilo foi uma reação particular de meu corpo ou se foi uma consequência óbvia diante de todo aquele frio, mas sei que não consegui mais levantar o braço sem gritar de dor, movimentar o pescoço e tive de passar a sexta-feira do meu aniversário em casa, sozinho, aproveitando, enfim, a mansão.


- Ça va? - perguntou-me o parisiense apaixonado por capoeira.
- Ça va, ça va. - menti.

Não voltei mais ao
site e passei três meses recuperando-me da distensão. Ganhei uma boa grana com apenas quatro dias, mas, após alugar um carro para sair de lá, pagar um hotel para mim e para minha esposa em Montpellier, comer e comprar dois bilhetes de ônibus para Lisboa, não sobrou muito.

Valeu a pena?


Se você leu a minha crônica "Aventura Siciliana", sabe que valeu. Um mês depois arranjei um emprego em Paris e cá estou, há mais de um ano.

Mas por quê? Pra quê? Apenas pra ser capaz de dizer aquilo que eu vou dizer aqui? Também.

Considere que a vida é como uma turbina eólica girando à sua frente, rapidamente e sem alguma queda de vento. Você poderá passar a vida inteira observando-a, com receio de que as hélices lhe cortem, ou você poderá começar a aprender a não ter mais medo.

Quando você encontrar uma pessoa que desperte em você algum sentimento de amor, ou alguma situação, não deixe de tentar atravessar o que você está sentindo, no que poderá ser uma oportunidade única, através de suas hélices. Sinta, lance seus sentimentos em direção da turbina com toda sua paixão, sem mágoa, certo de que há uma grande possibilidade de que você nunca mais veja Dulcinéa. Aliás, você não é culpado de sentir.

Diga-lhe que a ama nem que seja para ser escutado por apenas um segundo, pois você terá apenas um segundo e deverá decidir com quais palavras você irá ser recordado.


- Eu te amo.

Hélice.

Hélice, hélice, hélice, folhas de pontas agudas ao vento, como lanças em riste, a atravessarem meu coração...

Voltar

Oração de um quase Ex-alcóolatra II (fevereiro de 2009)

Hoje comemoro 50 dias sem beber. Pra mim, muito.

Não estou aqui para dizer que nunca mais irei beber na vida, ou para que me vejam como algum exemplo a seguir.
Mesmo que eu nunca mais beba na vida - o que não acredito - penso que eu sempre continuarei com esta vontade, e o único exemplo que eu quero dar é aquele onde cada um deve fazer aquilo que pensa ser o melhor para si mesmo.

Há 14 anos que não fico tanto tempo sem beber.

Há 25 anos comecei a beber; um quarto de século bebendo.

Tenho meus próprios motivos.

Não quero beber para esquecer que a desigualdade habita o mundo,
mas quero ser capaz de ser feliz e agir mais, consciente de que ela existe.

Não quero beber para menosprezar meus problemas,
mas quero ter forças para consertar aquilo que pode ser consertado e aceitar aquilo que não o pode ser.

Não quero beber para conseguir ser mais sexy e engraçado durante um jantar romântico,
mas quero que a mulher com quem eu esteja consiga ver essas qualidades em mim e aceite meus defeitos.

Não quero beber para ser um cara divertido e amado e,
para isso, procuro recordar-me que Charles Spencer Chaplin nunca bebeu.

Não quero ter de ouvir coisas do tipo:
Que isso... Um copinho não faz mal a ninguém…,
como se "não beber" fizesse de alguém uma pessoa anormal.
E não quero beber pra fazer mal ao meu corpo, pois, afinal, só tenho este.

Estou cansado deste atalho pro início,

deste Jogo das Cobras e das Escadas onde sempre voltamos pra casa primeira.

...


A possibilidade de me verem bebendo num futuro próximo é enorme,
mas quero deixar claro aqui o que desejo.

Voltar

Home | Textos | Livros | O Autor | Contato | Links | EN FRANÇAIS | IN ENGLISH | Plan du site


Sous-menu


André Carretoni

Retourner au contenu | Retourner au menu