Textos
Index
Feliz 2009 (dezembro de 2008)
O Rapaz e o Cavalo (novembro de 2008)
Carta Bomba (agosto de 2008)
Poesia a um Amigo (junho de 2008)
Feliz 2009 (dezembro de 2008)
Em 2009, desejo que você...
Pare de fumar completamente
E pare de beber completamente.
Essas coisas debilitam o corpo e enfraquecem a mente.
Coma mais legumes e verduras,
Coma menos carne vermelha,
Beba menos refrigerante
E deixe de ir a rodízios, onde você sempre come mais do que seu corpo necessita.
Venda seu carro,
Comece a usar transportes públicos,
Ou compre um carro elétrico, se o puder,
Ou vá de bicicleta para o trabalho, se o puder.
Faça esporte.
Gaste menos energia elétrica em casa,
Gaste menos petróleo em casa, se você o utiliza para a aquecer (meu caso).
Pare de ver tanta televisão,
Pare de ver programas inúteis,
Pare de ver publicidade,
Pare de engolir todo o lixo que lhe empurram.
Leia mais,
Procure uma biblioteca perto de sua casa ou do seu trabalho
E compre menos.
Compre menos DVDs, CDs ou livros que você somente verá, escutará ou lerá uma vez (fala um escritor),
Compre menos roupas de marca
E compre menos produtos chineses porque são baratos, pois eles custam a escravidão num país distante.
Consuma menos.
Eles sempre estarão lançando pequenas novidades.
Você irá sempre querer comprar todas?
Cancele seu cartão de crédito,
Cancele seu cheque especial,
Não compre mais nada em prestações,
Não gaste o dinheiro que você ainda vai ganhar,
Não pague juros.
Não veja o esporte como uma competição entre duas equipes,
Desista das diferenças de cores, nacionalidades, estados, sotaques e religiões,
Isso tudo apenas separa os homens.
Não queira mais competir, sobressair, vencer, mas continue lutando pelo seu melhor
E o melhor de seu vizinho, não apenas o de sua família.
Pare de falar mal das pessoas pelas costas,
Lembre-se mais dos seus defeitos do que os dos outros.
E pare de pensar que estão falando de você.
As pessoas têm coisas mais importantes para pensar.
Quantos anos você tem?
20? 50? 80?
Sua vida está apenas começando,
Não procure uma situação cômoda para você passar o resto da vida.
A morte irá chegar de qualquer maneira.
Não tenha medo de amar, mesmo se for para sofrer,
Pelo contrário até, agarre essa oportunidade com unhas e dentes.
Um dia ela irá embora e apenas ficará aquilo que você sentiu e fez.
Não fique tanto na frente do computador,
Ou use-o para coisas mais úteis.
Agradeça a todos os seus amigos e amores de seu passado
E siga em frente.
Estude, aprenda coisa loucas, viaje.
Por que não aprender o grego, ou o japonês?
Existe um mundo lá fora de hipóteses esperando por você.
Entre naquele museu que fica ao lado da sua casa e que você nunca entrou.
Faça uma lista de 30 coisas que você pretende fazer em 2009
E lute por cada uma delas já a partir destes últimos dias de 2008, pois você precisa fazê-las!
E para cada uma realizada, escreva uma outra que você ainda se lembrará.
Sonhe alto, lute com todas suas forças e realize.
E nunca se esqueça,
Você não precisa de algo ou de alguém para ser feliz, nem mesmo deste texto,
Pois você tem tudo dentro de você.
Feliz 2009.
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O Rapaz e o Cavalo (novembro de 2008)
O rapaz está exausto. Ele está há cinco dias sobre um cavalo selvagem, que não dá mostras de que vai desistir. O cavalo pula para frente, para trás, dá coices, contorce-se, relincha, mas não consegue derrubar o rapaz. Derrubar-lhe é sua única saída, pois ele não conhece outra vida se não a de não ter alguém sobre o seu dorso. O cavalo pula para frente, para trás, dá coices, mas não consegue derrubar o rapaz. É um cavalo selvagem, e não há sela sobre ele.
O rapaz está exausto. Gotas de suor escorrem por sua face. Seus dedos, emaranhados na crina, começam a doer. Cinco noites e dias assim, pulando para frente e para trás. Cinco noites e dias, sem parar. Mas, de repente, o cavalo para. O rapaz não acredita, e o cavalo busca a água dum rio para beber. O rapaz não compreende e mantém-se atento, mas o cavalo parece mais preocupado em matar a sede do que com ele.
Não adianta. O rapaz tem de manter-se num estado de alerta, agarrado àquela crina. Não sabe ainda se o cavalo desistiu.
Duas horas depois, dito e feito. Um cavalo saciado e repousado vale por dois. Ele levanta com violência sua parte traseira, e o rapaz teria caído na água se tivesse deixado de estar atento. O rapaz agora não tem mais dúvidas, terá de viver durante semanas nesta situação para vencer.
E o cavalo pula, pula, pula, dá a entender que se vai acalmar, pula com mais violência, com uma violência nova e continua a pular.
E o rapaz não consegue dormir, não se alimenta, emagrece e mantém-se agarrado. Sua barba começa a crescer, seus cabelos ficam gordurosos por causa do suor, e ele continua mantendo sua mão firme e suas pernas crispadas. Ele sente-se como se estivesse há anos ali, mesmo consciente de que ainda está a viver o início desta provação.
Uma distração, ele quase cai. Ele endireita-se e arranja forças onde não há mais.
O cavalo lança-se de lado contra uma árvore, e o rapaz grita, ao sentir uma dor lacerante em sua perna esquerda. Ele vê uma enorme farpa encravada em sua cocha e retira-a, lançando-a longe. O cavalo continua, indiferente.
O cavalo tenta mordê-lo, dá coices seguidos, e o sangue começa a escorrer pela perna do rapaz. Com uma das mãos, ele rasga sua camisa e tenta estancar a ferida.
Durante a noite, o rapaz sente frio, durante o dia, o rapaz sente calor. O cavalo também sente calor, frio e cansaço, mas sua liberdade está em jogo.
"Afinal", o rapaz pensa, "o que eu quero provar com isso? Por que eu lhe quero roubar o que ele tem de mais precioso?" Mas o cavalo também está tentando roubar-lhe o que ele tem de mais valioso, que é sua capacidade de lutar pelo que acredita.
O rapaz sente uma fisgada no peito; é a primeira vez que não se sente capaz de sobreviver a todo este esforço.
A primeira semana termina, começa a chover.
A terra molhada torna-se escorregadia, e o cavalo cai sobre a perna ferida do rapaz. O cavalo levanta-se e sente que o rapaz continua lá, agora agarrado ao seu pescoço.
O rapaz começa a chorar em silêncio, e suas lágrimas tornam-se invisíveis misturadas à água da chuva. Ninguém é testemunha de sua luta, ninguém pode ajudá-lo, ninguém é capaz de salvá-lo. Ele está só, e a única saída possível para ele é manter-se ali, até o final. Sua perna dói, ele sente como se seus braços fossem cair, e sua saúde começa a deteriorar-se.
- Até o final. Até o final. – ele murmura.
Terá de esperar um mês? Dois meses? Cinco? Esperará. Ele está certo de que, vencendo, conseguirá o prêmio maior, aquilo pelo que tem lutado.
O cavalo pula, pula, relincha, um relincho agudo, amargo, desesperado. O cavalo chora também, de dor, de medo, de raiva. O rapaz encrava com mais força seus dedos na pele do cavalonão desiste, não desistirá.
Uma vez, ainda garoto, o seu pai perguntara-lhe: "O que é que você deseja ser quando crescer?", "Livre". Ele respondera. Não é uma questão de roubar a liberdade do cavalo ou não, mas uma questão de alcançar a sua própria liberdade, e ele jamais terá de fazer isto novamente.
O cavalo parte correndo, para bruscamente, parte correndo e corre por toda a planície. Ele para bruscamente e volta a correr, corre em direção a uma montanha e, lá em cima, levanta as patas da frente por um tempo interminável. Ele baixa as patas e bate-as contra o solo, diversas vezes, com força, levantando poeira e com o intuito de criar um terremoto, desabar o mundo, retirar o rapaz de seu dorso. Ele relincha, e o rapaz quase escuta a voz dum homem lançando impropérios. O cavalo volta a correr montanha abaixo. Ele pula pequenas árvores, para, dá coices e corre em direção a um precipício, aumentando sua velocidade.
"Não será uma tarefa fácil", dissera seu pai. "Eu sei, mas eu não vou a parte alguma mesmo".
Próximo do precipício, a escassos metros, o cavalo para, ele levanta de novo suas patas dianteiras e relincha. O rapaz range os dentes. A altura do precipício é ameaçadora. Nem ele nem o cavalo sobreviverão à queda.
- Vamos! – grita o rapaz – Não me vai dizer que ficaste com medo!
O cavalo também range os dentes.
O cavalo corre novamente para longe do precipício e para. Ele relincha alto, mais alto, contorce-se e, finalmente, cai. O rapaz mantém-se ainda agarrado ao animal, mas ele começa a realizar que há algo de errado com o bicho. Suas quatro patas começam a correr no vazio, sua cabeça bate duas vezes no solo, e o cavalo olha para trás e para os lados antes de pousar a cabeça. Uma espuma começa a sair de sua boca. O rapaz livra sua perna do peso do cavalo e corre para apoiar-lhe a cabeça.
- Calma, amigo. Calma.
O cavalo olha para o rapaz, e lágrimas começam a escorrer de seus olhos, lágrimas de alívio.
- Calma. Calma. Eu estou aqui. – diz o rapaz.
O corpo do cavalo treme algumas vezes, o cavalo solta um ruído, sua pata esquerda dianteira bate duas vezes no ar, e o cavalo suspira. Ele morre.
O rapaz fica ali, durante horas, a acariciar-lhe a crina. O rapaz também chora.
O rapaz demora um dia para enterrá-lo. Por fim, ele fica de pé, faz uma prece e parte.
Quinze dias. Quinze dias a pular para frente e para trás. Quinze dias. Agora eles estão, enfim, livres.
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Carta Bomba (agosto de 2008)
Equiparo meu trabalho com o de desmantelar bombas. Devo aprender tudo sobre nitroglicerina e explosivos plásticos. Tenho de saber qual fio não cortar e não expludo um engenho desde os tempos da Academia, quando tive de fazer uma grande faxina no laboratório.
Ao escrever sobre a alegria, procuro dar direção à prosa, sem me entusiasmar. Não devo pensar pelo leitor, e exagerar nos adjetivos e advérbios pode ser perigoso.
Ao escrever sobre a tristeza, é meu dever transportar as palavras com atenção e motivo e procurar um desfecho saudável. Tenho histórias na cabeça onde tudo explode no final, mas ainda não chegou o momento de escrevê-las, ou talvez nunca o faça.
Perdi amigos mais incautos e tenho fotos de certos exemplos penduradas na parede. Sei que não é um trabalho sensato, contudo, pode ser uma profissão digna.
Recordo-me que tive a primeira experiência significativa nesse meio ainda jovem. Fechei uma redação da escola, que ironia, com uma bomba atômica caindo em cima de mim e, como era um sonho, meu acordar. Recebi um elogio e gostei, contudo, hoje imploro para despertar novamente em meus textos, mas somente sou assaltado pela realidade. Minhas linhas transformaram-se numa tentativa de espelhar a verdade, mesmo através de imagens.
Minha segunda experiência foi pouco tempo depois. Uma outra professora pediu para que os alunos escrevessem uma redação sobre o que pensavam da instituição onde estudava. Ela jurou que seria a única pessoa a lê-las, mas descobri dois meses depois que eu estava sendo expulso da escola; motivo: exagerei nos adjetivos.
Minha terceira experiência foi anos mais tarde. Escrevi uma poesia para meu pai, e ele saiu correndo para mostrá-la aos seus colegas. Na poesia, eu dizia que o amava e pedia-lhe para que parasse de querer morrer. Não adiantou muito, e ele morreu, e eu continuei amando-o. É uma das raras exceções em que espero não ter economizado nos adjetivos.
Escrevi bilhetes de amor eterno para mulheres que amei mais do que a própria vida, e quase todos esses amores não sobreviveram.
Escrevi bilhetes de amor que sobreviveram mais do que as relações que os originaram.
Tenho relações sobre as quais ainda não escrevi o suficiente, mas espero ter uma longa vida para poder continuar fazendo-o.
Escrevi cartas para pessoas queridas, quando a distância se fez presente, e cada uma dessas cartas ajudou-me a acreditar na alegria do reencontro.
Escrevi mentiras e bobagens e espero que não as tenham guardado.
Escrevi preces na forma de poesia e fui atendido, ou confortado.
E, assim, continuarei executando meu trabalho, com horas alegres e desgraçadas, querendo que saibam que, quando estas linhas pararem, terá chegado o momento de cortar o fio de meu epitáfio. Não. Não lhes direi qual é, pois isso seria como contar-lhes o final dum livro. Se eu sei qual é? Claro que sei. Eu sou um escritor e sempre o conheci, desde o dia em que eu tive a certeza do título que daria para o romance de minha vida.
Enfim, cada frase que escrevemos deve ser manipulada com o devido respeito e atenção, pois, conforme comprovado, elas têm o poder de marcar de forma definitiva o passado.
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Poesia a um Amigo (junho de 2008)
A poesia não é minha área.
Pra começar,
detesto a métrica,
depois,
verificar a musicalidade de cada frase,
forçar que uma frase termine em crase,
detesto.
A coisa soa bem ao meu ouvido ou não,
mas contar as sílabas,
procurar as palavras que se encaixem,
detesto.
Prefiro uma palavra que signifique melhor o que eu quero dizer
do que uma outra somente porque é proparoxítona.
Prefiro uma frase confusa, se o pensamento é confuso,
do que uma vazia, mas cheia de técnicas.
Anseio a liberdade
e tento refleti-la naquilo que escrevo,
por isso,
pensei em escrever-te uma poesia,
mas quis avisar-te sobre o que não esperasses,
técnica.
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