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O Erro (setembro de 2006)
Saint-Prex (agosto de 2006)
Quem comeria um Caracol Gosmento? (junho de 2006)
Heidi, por Edgar Allan Poe (maio de 2006)
Almoçando com Siddartha (abril de 2006)
Inverno Suíço (abril de 2006)
Aventura Siciliana (março de 2006)
A Votação dos Vivos (março de 2006)
O Erro (setembro de 2006)
Cometi um erro, e um erro, substantivo que representa o ato de errar, será para sempre um erro. Por mais que você tente consertá-lo, diminuí-lo, esquecê-lo, ele será – talvez seja outro erro repetir – para sempre um erro.
Terrível ideia...
Perdoem-me, mas não vou falar sobre o acerto. Apesar desse outro substantivo sofrer da mesma fatalidade, ele é esquecido com mais facilidade, por mais que isso seja outro erro.
Mas muitos dos piores erros são os que deles podem surgir, segundo a nossa relação com os mesmos ou com os terceiros envolvidos. No primeiro caso, temos como costume remoer acontecimentos através dos anos, julgando-nos com impiedade quando, muitas vezes, os outros já não se lembram do sucedido. No segundo, recebemos como praga frases do tipo "que decepção, eu jamais esquecerei o que você fez" e aprisionamo-nos a uma infelicidade eterna absurda, quando o que estão tentando fazer é apenas nos ligar a um sentimento implacável de culpa; às vezes, conseguindo.
Na solidão de seu quarto, abra seu coração, conscientize-se do mal que possa ter feito e esteja disposto a responder por seus atos (não sou eu quem vai dizer onde começa o mal e termina o bem). A liberdade começa aí. Se tiver a possibilidade de amenizar uma dor, voltar atrás, fazer as pazes, não perca tempo, mas, se é tarde demais para desmanchar o que foi feito, não se martirize, melhor sorte na próxima vez. É bastante conhecido o aforismo: errar é humano, persistir no erro é burrice, mas quantas vezes ouvimos essa frase sem meditarmos construtivamente sobre seu significado, que só não erraremos de novo se transformarmos as experiências passadas num alicerce para nossa sabedoria futura. Aprenda com o que aconteceu e cresça, diminua o número de tropeços, mas, sempre que cair de novo, porque você vai cair de novo, levante-se, sacuda a poeira e volte a andar. Não esmoreça. Nunca deixe de caminhar por causa de ideias destrutivas de que você não é bom o suficiente, ou que você nunca fará nada direito. Acertar é humano. Acredito, se tentarmos, que o ser humano é capaz de cometer grandes acertos – e melhor remédio contra os erros não há.
Sobre os erros dos outros... o ser humano está cheio de defeitos e qualidades, então, tiremos daí duas lições. Não julguemos os defeitos de ninguém para que a gente não admita que nos julguem e que a gente sirva de exemplo para os outros quando acertarmos. Aprender é mudar, disse o Buda, e se você acha que não tem nada para aprender nesta área discutida, bem, então esqueça o que você leu. Faça melhor! Considere que eu cometi um grave erro ao escrever este texto, pois alguns "erros" existirão para sempre.
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Saint-Prex (agosto de 2006)
Os trinta graus destes dias recordam-me: como é possível sobreviver quando a temperatura ultrapassa os quarenta? Sobrevive-se. O ser humano tem a incrível capacidade de se adaptar ao ambiente, provam-nos os exemplos.
Iremos encontrar pessoas nos lugares mais tórridos do planeta assim como nos mais gélidos, nos lugares mais miseráveis assim como nos... ainda mais miseráveis. Sem nos esquecermos de que isso serve tanto para os remotos confins da Terra quanto para as grandes cidades, já no inconsciente coletivo como a pior das selvas.
Os hospitais públicos, as prisões lotadas, os viadutos, as casas de família onde seus integrantes não suportam mais seus consanguíneos, os escritórios competitivos. Somos uma espécie capaz de surpreender.
E o irônico nisso é que, ao sentirmos sede, o lógico seria, dentro das possibilidades, tentássemos ir à busca de água, ao sentirmos fome, em direção aos alimentos, ao sentirmos os males de uma superpopulação, ao encontro duma melhor qualidade de vida, mas não. Curiosamente, muitas vezes preferimos adaptarmo-nos a uma situação desconfortável do que buscarmos um lugar onde poderíamos viver melhor (claro que existem indivíduos que dirão que são felizes onde estão – uns mais sinceros do que outros – ou que dirão que amam o lugar onde vivem e os hábitos que lhes cercam – uns mais acomodados do que outros – mas esses seriam estudos à parte), transformando, por fim, uma qualidade num defeito.
E, confessemos, de comodistas todos nós temos um pouco.
Não suportamos o trabalho, mas continuamos nele, afinal, a felicidade de terceiros depende de nosso sacrifício. Não podemos mais com um barulho, resmungamos, mas esquecemos a máxima de que os incomodados que se mudem. Detestamos as coisas que nos dizem, discutimos, engolimos, mas, dificilmente, mudamos nossa maneira de ser.
Adoro nadar. Mergulhar o corpo totalmente dentro da água é uma espécie de renascimento para mim, mas há tempos que não ia à busca dessa minha satisfação.
Tenho aqui perto a praia de Vidy. Uma espécie de Aterro do Flamengo suíço para onde vão, nos fins de semana, grande parte dos habitantes de Lausanne. Nada diferente do referido quintal carioca. Churrascos com amigos, diversão com a família, farofada. Não julgo ninguém e procuro não dizer que sou eu que sei o que é bom, mas isso já não me agrada. Além da falta de respeito pelas toalhas vizinhas, o que invariavelmente acontece, nadar é impossível, de acordo com estranhas algas que insistem em flutuar pela superfície do lago Léman.
Enfim, hoje, no último domingo do mês de Julho, resolvemos seguir um conselho dum jornal gratuito local e pegamos vinte e cinco minutos de trem para conhecer uma pequena praia em St-Prex. Foi mais caro, dispensamos um esforço maior, mas qual não foi nossa estupefação quando não só encontramos um tesouro de vieille ville, como também um ponto menos frequentado e uma água cristalina. E estamos falando do mesmo lago.
Algo que amo foi a primeira coisa que fiz ao chegar, fiquei de sunga e banhei-me. Nadei e batizei-me de novo. Limpei-me de todos os males e pensei: “Começarei de novo!”.
– Obrigado, Senhor. – disse ao voltar à tona, algo que sempre sai naturalmente de minha boca nesses casos
Existirão pessoas felizes em todos os tipos de ambientes do mundo, os gostos são diferentes, mas a única maneira de ser da qual eu discordo é aquela em que se vive uma aceitação de algo que nos cerca quando não estamos satisfeitos.
O que fizemos para achar que devemos continuar infelizes? Quem disse que uma pessoa não pode mover os céus à procura de sua própria alegria?
Mas não estou aqui para tentar convencer ninguém dessas coisas. Muitas vezes, quando um escritor desenvolve este tipo de dissertação, é somente porque ele quer apenas se auto-apoiar, pois, como disse um amigo meu: “ninguém disse que seria fácil”, e uma palavra amiga, nossa própria ou da boca dos outros, sempre nos portará para mais longe.
Mudar não é fácil, vencer a inércia é o mais difícil, mas recordemos o que Clarice Lispector escreveu: nunca faça o mesmo caminho para o seu trabalho, pois você poderá ter belas surpresas. Belas surpresas como a praia de Saint-Prex.
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Quem comeria um Caracol Gosmento? (junho de 2006)
Mês passado, durante um jantar de sushi sashimi, feito por mim, resolvi que minha próxima crônica seria a falar de comida.
Hum... Comida... Quem é capaz de viver sem ela... (?)
Porém, mais do que falar sobre meus gostos, ou minha falta de gosto, ou transcrever alguma receita maluca a qual gostaria de compartilhar, parti do princípio que interessante mesmo seria transcrever um pouco da viagem gastronômica que tenho feito desde 1998, quando parti do Brasil.
Comer, no Rio de Janeiro, era, até então, uma questão resolvida. Lá, bom mesmo era comer o que eu já conhecia. Farofa, mandioca, catupiri (da maneira que viesse), pão de queijo, acarajé, sfiha, uma paella no antigo Rio Galícia, bife e batata frita, mas, depois, ulálá, Deus é testemunha do que tenho encontrado nesta vida.
A primeira coisa sinistra que vi, no exterior, foi um perceve na Cervejaria da Trindade, em Lisboa. Mais parecido com uma unha negra alienígena do que com um petisco, coisa que é, funciona da seguinte forma: devemos quebrar sua ponta e chupá-lo. Comi apenas um e achei que não valia a pena. Após isso, vieram o choco grelhado – um tipo de polvo branco que adoro – o cavalo – que estranhei apenas no começo – a miga – mais saborosa do que minha preocupação com meu colesterol – o camarão gelado – que repousa dentro dum prato de gelo antes de ser servido – a paella original – bastante diversa daquela que eu conhecia – o chucrute, o cornet de châlet, a raclette, a fondue chinoise e, finalmente, o caracol – miniatura do scargot, é cozido dentro duma água temperada, como o perceve.
Comecei brincando. Estava numa mesa com sete ou oito portugueses e, como eu era o único que não estava metendo a mão no pratinho de moluscos, resolvi arriscar.
Nunca mais parei.
Existem três maneiras de comer esse pequeno, gosmento e rastejante ser:
- Chupar e o que vier, veio, joga-se a "casinha" num outro prato e pega-se um outro, cuja qualidade você já devia estar namorando enquanto comia o primeiro;
- Fazer um pequeno buraco na "casinha" com o dente e chupar o caracol, que normalmente vem, mas é uma técnica que não gosto. Sempre vem o pedacinho quebrado da casca para dentro de sua boca;
- Pegar um palito de dente, ignorar a sensação de que os dois olhinhos estão lhe observando, retirar o caracol como um cirurgião, comê-lo, e depois sugar da "casinha" o caldo que restou.
Gostei tanto que, hoje, prefiro mais a caracoleta do que o caracol. Além de maiores, têm um gosto mais consistente, são grelhados no sal grosso e podem ser ingeridos, minha preferência, com molho de mostarda. Perguntem-me, e eu sou capaz de lhes indicar um excelente restaurante na Graça, também em Lisboa.
Nojento? Sem ao menos o ter provado?
Não... Penso que é apenas uma questão cultural. Bastava você ter nascido em Alfama ou ter sido criado a escutar Amália Rodrigues que hoje você estaria aí, lambendo os dedos. Eu não sou alfacinha nem escutei fado durante minha infância, mas como eu adoro conhecer outras culturas, bon appetit.
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Heidi, por Edgar Allan Poe (maio de 2006)
Penso que quase toda minha geração chorou ao ver Heidi em desenho animado. Não fui exceção. E, agora, talvez pela memória emotiva que essa garotinha me traz, talvez pelo interesse cultural que tenho vivido, resolvi ler o clássico romance em sua língua original, com a desculpa de que isso seria em prol de meu francês.
Escrito em 1880, pela suíça Johanna Spyri – nome, até então, desconhecido para mim – conta a história duma pequena órfã que é levada para viver com o "tio dos Alpes", numa casa perto da aldeia de Maienfeld, na Suíça alemã.
Os personagens do romance estão divididos em duas facções: os puros de coração e o resto, sendo que, ao contrário da vida real, é na primeira facção que encontramos o maior número de integrantes.
Portados pela romancista, deliciamo-nos com as aventuras e a pureza duma menina de oito anos – missão que a autora desempenhou com enorme sucesso – para, com o decorrer das páginas, descobrirmos que lá se foram os anos em que éramos capazes de chorar por tal simplicidade.
Hoje, minha mesma geração, muito mais próxima de ser colocada na segunda facção do que na primeira, com alguma dificuldade consegue sentir as mesmas emoções de que sentiu quando ainda era jovem, graças aos acontecimentos menos felizes que acabaram por macular nossa sensibilidade e maneira de ver a vida.
Quem não gostaria de voltar a deixar a porta de casa aberta? A ajudar a velha vizinha para poder escutar suas histórias? A sonhar que seremos para sempre felizes e que ninguém querido irá, um dia, morrer? A crer que é possível emprestarmos o nosso bem mais valioso sem a possibilidade de perdê-lo? A pensar que não há fome no mundo e que tudo está bem se nós estamos bem?
Para nós, restará apenas uma nova Heidi, perdida dentro dum conto qualquer de Edgar Allan Poe, cujas cabras serão antes gatos pretos e o velho tio um abusador de menores.
A triste consciência que alcançamos de que o mundo não é perfeito e que nossa mente está deveras poluída.
Apenas um último suspiro, então, permanece, proteger as crianças. Deixá-las aproveitarem os momentos belos da vida e serem quem realmente são, crianças. É uma missão impossível, já que jamais venceremos a televisão, os jornais, as revistas e os jogos eletrônicos, mas que elas, pelo menos, não cresçam rápido demais, para que possam chorar e rir, pelo maior tempo possível, ao lerem as aventuras e desventuras da pequena Heidi, a órfã dos Alpes.
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Almoçando com Siddartha (abril de 2006)
Bastou atravessar um longo túnel para encontrar um céu azul e sem nuvens. Normalmente é assim em Ticino, na Suíça italiana. Separado dos outros cantões pelos Alpes, muitas vezes já deu as boas vindas à primavera antes de ter terminado de nevar nas casas de língua francesa, alemã e romanche – dialeto que corre o risco dum dia desaparecer, assim como o ticinese.
Eu dormiria de novo em Lugano, uma das principais cidades dessa região e delicioso lugar para visitar. Aliás, na primeira vez que lá estive, vi um cartaz na rua que me fez pensar que era uma foto do Pão de Açúcar. Não era. Era Lugano.
A princípio, como estou a viver na Suíça francesa, causa sempre um pouco de impressão ver tantas pessoas falando italiano sem que sejam, necessariamente, turistas, já que nem saí do país, para, depois, com os sorvetes e as pizzas, passar a questionar se não saí realmente, pois, de tão bons, só podem ser italianos. E, por falar em Itália, nada mais do que um passeio de barco para colocar o pé na bota.
Mas o ponto máximo do meu feriado, depois de ter interrompido duas missas de Páscoa para encontrar uma língua que eu compreendesse, foi um passeio que fiz até à cidade de Montagnola, até a casa de meu "amigo" (assim como eu espero um dia ser considerado) Hermann Hesse, o autor de Siddartha. A história, segundo esse autor, do príncipe indiano que viveu antes dO Cristo e encontrou o Nirvana, uma doutrina romanceada que me portou tamanha lição que a tenho indicado para inúmeros conhecidos.
Hermann Hesse, filho de missionários alemães, estivera diversas vezes na Índia e na Itália, descobrindo, no primeiro, suas crenças e, no segundo, seu amor pela arte. E terminou seus dias pintando modestas aquarelas e quadros a óleo, como forma de terapia à sua mente questionadora.
"Ler um livro, para o bom leitor significa:
conhecer a personalidade e a mentalidade de um desconhecido,
procurar compreendê-lo, possivelmente conseguir tornar-lhe amigo."
(Hermann Hesse)
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Inverno Suíço (abril de 2006)
Meta um agasalho, o vento corta a face, é inverno na Suíça. Dentro de casa estamos confortáveis, um vidro separa dois mundos, mas, se tivermos de sair, ai daqueles desprovidos de mais tecidos. Não que eu more na parte mais fria das Comunidades Helvéticas, mas, já aqui, o termômetro tem marcado, invariavelmente, 0º.
Muitos imaginam que deve ser emocionante ver neve, sair, fazer bonecos, brincar no parque, mas quem me dera que fosse sempre assim. Acreditem, depois dum tempo, nem mais olhamos com atenção para as diversas montanhas brancas que nos cercam. Os famosos Alpes tornam-se vulgares. O mais importante, porém, o mais marcante de um inverno num país que neva fica marcado pela chegada da primavera. Muito mais visível do que nos países tropicais, é isso que com mais emoção tenho vivido nesses últimos dias. É belo o primeiro floco de neve que vemos cair, divino, mas nada comparado com a primeira flor que vemos desabrochar.
Ah, esse calorzinho a bater no corpo, o dia crescendo novamente, escurecendo, a cada nova jornada, três ou quatro minutos mais tarde, a oportunidade de poder sentar-se de novo numa esplanada, com uma cerveja gelada, colocar óculos escuros, uma camiseta ligeira, bermuda. Não somos planta, mas como sentimos o alimento que o sol nos dá.
Estação dos apaixonados, não foi nesta estação que nasceu Romeu e Julieta? O casal enamorado de Verona? Depois ainda existem os pássaros, os pardais inclusive, que dão sinais de vida depois dum silencioso vazio. Voltam a cantar perto de nossa janela e a atrair-nos para que abramos as portas e os braços para os dias de temperatura mais amena. O ar, que chega até os nossos pulmões, porta a exuberante possibilidade de renascimento da natureza. As árvores renascem, o mundo renasce, o homem renasce.
O homem – o ser – esse complexo que esconde dentro de si próprio um outro universo. Suas razões, seus defeitos, virtudes e verdades. Também não é para ele uma oportunidade de renascer a cada novo ano? Que as estações passadas fiquem para trás, deixemo-las partirem, guardemos delas somente as belas recordações, as alegrias e os aprendizados, abrindo espaço para que, nas próximas, a gente ria mais, perdoe mais, ame mais.
Estou apaixonado, é verdade, mas também apaixonado pela vida e, sobretudo, pela primavera, esta bela dama que nos traz uma oportunidade de recomeçar, mais leves, mais serenos, certos da grandeza de cada um desses pequenos seres humanos que nós somos, pequenos em tamanho, mas infinitos em potencial.
Que cada palavra não dita ou mal recebida se transforme numa bela flor deste nosso belo jardim comum. O futuro será sempre diferente, mas que ele seja melhor.
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Aventura Siciliana (março de 2006)
Olhando para trás, reparo que muitos dos momentos de minha vida que mais gerariam histórias interessantes para contar são aqueles nos quais me deixei levar pela força de uma paixão. Um tipo de "espírito que baixa em mim" que vira e volta aparece e diz: "Vam'bora, vam'bora, que depois tudo se ajeita". E, realmente, se ajeita, mas somente depois de, no meio da aventura, descobrir que as coisas, afinal, não seriam tão fáceis como, antes, imaginei. Foi assim quando servi o Exército, com minha ida para Portugal, com o Caminho de Santiago, com algumas relações amorosas que tive e, o motivo de estar hoje aqui, com minha aventura pela Sicília, no papel de Peter Fonda.
Eu e a, hoje, senhora Carretoni estávamos vivendo num apartamento alugado em Cefalú, quando surgiu o irresistível projeto de alugar uma e cruzar a ilha siciliana em apenas um dia, com o direito a uma bela foto do vulcão Etna, que ainda não tínhamos visto.
Entrar no negócio de aluguel foi fácil, pagar foi fácil, tinha acabado de tirar a carteira de moto no Brasil, por isso, acertar os documentos também foi fácil. Pecado eu não ter sido filmado quando saímos da loja. Eu podia jurar que estavam tocando to be Wildem todas as rádios italianas.
Dei uma volta no quarteirão para sentir o balanço de uma , mas tranquilo. Nada demais, pensei. E assim partimos em direção à auto-estrada, às dez da manhã, seguindo as indicações que nos levariam até a cidade de Siracusa, nosso objetivo maior. O nosso plano inicial era o seguinte: chegar ao destino antes da uma, passar duas horas conhecendo a cidade e, depois, voltar.
Alguém imagina como é o meio da Sicília? Tudo bem, eu explico algo que apenas descobri no decorrer daquele dia. Não tem nada! A estrada cruza planícies e mais planícies descampadas e tudo o que você vê em volta é... nada; tirando uns carros queimados que vimos fora da estrada, o que originou certas conjecturas sobre a ação da Máfia naquelas redondezas.
Ainda sobre o descampado, todo o balanço de uma scooter deixou de parecer com o balanço de uma moto, deixou até mesmo de parecer com o próprio balanço de uma É que aquele tipo de natureza fazia com que todo o vento chegasse até nós com uma força que não apenas me obrigava a não andar a mais de oitenta, para não sairmos voando dali, mas que também começava a me fazer questionar se tudo aquilo havia sido uma boa ideia. Sem me esquecer de que, curiosamente, não vimos nenhum outro veículo de duas rodas durante todo nosso percurso – minto, vimos uma moto, a qual, provavelmente, também estava sendo pilotada por um outro estrangeiro – em compensação, caminhão... putz! Tirando a Avenida Brasil, eu acho que eu nunca tinha visto tantos. Vis criaturas que nos faziam sambarem todas as vezes que passavam por nós.
Cem quilômetros foram feitos, faltavam quatrocentos.
Finalmente, chegamos perto do vulcão Etna – tenho uma estranha e inexplicável relação de amor e ódio com os vulcões – e fizemos as desejadas fotos. No entanto, uma coisa já não andava muito bem, o tempo gasto com a cruzada. Tínhamos demorado mais do que o planejado para chegar até ali, o que nos obrigou a tomar uma importante decisão. Levaríamos aquela aventura até o fim, ou mais valeria voltar enquanto não estávamos assim tão longe? E, claro, resolvemos continuar.
Mão no acelerador – estranho isso – e lá conseguimos chegar até aonde queríamos. Estacionamos, olhamos para o relógio, três horas da tarde, e vimos que demoramos mais de quatro horas para fazer duzentos e cinquenta quilômetros. Que desgraça! Isso significava que, para não pegarmos a estrada de noite, nós deveríamos sair dali exatamente às... naquele exato momento. Se não quiséssemos viver a mesma aventura dentro duma escuridão, não poderíamos demorar nem cinco minutos e partir, o que fizemos, dando-nos tempo apenas para comer algo.
Que ironia. Fizemos todos aqueles quilômetros somente para comer num foodTeríamos gasto vinte minutos e nem metade do valor para comermos no foodmais próximo de Cefalú, se tivéssemos ido de trem. Mas calma lá, essa foi uma conclusão que nós chegamos apenas no dia seguinte. Ainda tínhamos de pegar a estrada de volta e, para uma pessoa que nunca havia dirigido mais do que uma hora seguida de moto, o que eu mais estava pensando naquele momento era em como a minha bunda começava a doer.
Detesto ser eu a dar as más notícias, mas alguém tem de a fazê-lo. Era outono e descobri também que, depois das duas horas da tarde na Sicília, aquele mesmo vento lateral virava um vento lateral frio, e eu, apenas com um casaco de moletom e uma camiseta, comecei desesperadamente a tremer (aprendi a não exagerar nos adjetivos e advérbios num texto, mas, compreendam, fazia MUITO frio).
Quando parei para reabastecer, esticar as pernas, que estavam mais duras do que um coco verde, e colocar umas luvas que tinha, descobri que meus óculos espelhados e caros, até então pendurados em minha camiseta, haviam ficado em algum lugar daquela estrada. Voltar? Nem pensar. Que pensassem que foi outra pessoa a ser despachada pela Nostra
Quando, enfim, chegamos ao pedágio de quem entra em Cefalú, com hipotermia, dor nas pernas, dor na bunda, sem os meus óculos, a noite tinha acabado de cair. Que alívio! Teria sido terrível guiar naquelas mesmas condições por estradas pouco iluminadas.
Quinhentos quilômetros no total, para surpresa do da loja. Ele foi até conferir o velocímetro após lhe termos dito que tínhamos estado em Siracusa.
Bem, agora, se me perguntarem se eu aprendi a lição, se eu assimilei o hábito de desconfiar quando o santo é grande, se eu já vou mais devagar em minhas escolhas, se eu me tornei alguém mais precavido com a maturidade, eu vou ser obrigado a responder um discreto e consciente: "que nada". Eu teria feito tudo de novo, igualzinho, pois eu sou simplesmente assim. E vai ser desta forma que eu vou continuar a viver todos os outros dias de minha existência, sempre a procura, apaixonado... com dificuldades... mas feliz.
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A Votação dos Vivos (março de 2006)
Para quem não sabe, Vevey é a cidade onde Charles Chaplin passou seus últimos vinte e cinco anos de vida; depois de ter sido expulso como comunista dos Estados Unidos. É uma pequena ville suíça separada da França apenas por um lago.
Não deve existir nada mais belo do que envelhecer ao lado da mulher amada, em sua casa, num lugar tranquilo, com o sentimento de trabalho realizado.
Aproveitando o belo tempo que fizera no último domingo, sinal de que a primavera está chegando, não deixei de achar curiosa uma pergunta que me surgiu na mente: se a humanidade pudesse fazer uma votação para escolher uma personalidade famosa para voltar do além, quem é que venceria?
De cara, imaginei que os mais votados seriam os de teor religioso. Buda, Jesus, Gandhi, Papa João Paulo II e todos os santos a esses ligados estariam encabeçando a lista. Depois, em segundo lugar de importância, viriam os políticos e os revolucionários. Quantas pessoas não gostariam de dar mais tempo aos Kenedys, a Mather Luther King, a JK ou até mesmo para a princesa Diana? E, finalmente, em terceiro lugar, espalhados em grandes minorias, viriam os artistas e os atletas. Seriam os votos daqueles que gostariam de rever as vitórias de Sena, os shows de Elvis, as pernas da Marilyn Monroe ou os novos trabalhos de Michelangelo.
Ok, ok. Não posso ignorar que seria uma votação democrática e também existiriam votos inconsequentes (o texto é meu e eu escrevo o que quiser) que honrariam os grandes tiranos, ditadores e assassinos de nossa história. Hitler, Napoleão e Mao Tse teriam seus votos; Salazar, Franco e Mussolini os seus. Teriam votado nesses: os historiadores, os curiosos, os seguidores de suas filosofias ou aqueles que sentem saudades dos velhos tempos; estúpidos, estúpidos, e eu já disse que o texto é meu.
Tudo bem, mas... e eu? Em quem é que eu votaria?
Em Jesus? Não... Melhor não. Ainda pegariam ele de novo pra Cristo. Além disso, segundo alguns, nem precisamos votar nEle para que Ele reapareça um dia. Então no Buda! No Gandhi! Mas trazê-los de volta pra quê? Eles já não deixaram tudo dito? E agora eu iria querer o quê? Que eles repetissem tudo de novo só porque nós não os entendemos direito? Porque acreditamos que suas mensagens foram distorcidas com o tempo? Outros mil anos para distorcermos tudo novamente. Não. Prefiro acreditar que, se eu erro, é porque eu sou um fraco, não um surdo.
Então por que não votar nos santos? Naqueles que deram suas vidas em sacrifício? Madre Teresa de Calcutá, Bezerra de Menezes e... Mas peralá, eles também não. Iria querer que eles continuassem a ser os únicos a realizarem o trabalho de todos?
Tancredo Neves? Che Guevara? Não. Também não. Lá se foi o tempo em que eu acreditei que uma pessoa apenas é capaz de salvar uma nação, ou unificar o mundo.
Adianto-me para dizer que, sobre o quarto nível, não voltarei a falar.
O que faz com que me reste, portanto, somente o terceiro escalão, o dos artistas e dos atletas, e, claro que, como escritor, ninguém deve ficar surpreso se eu ficar entre os artistas. Mas até aí tudo bem, mas em quem? Em quem é que eu votaria para que chamassem de novo para uma nova turnê? Ou melhor, quem eu gostaria que viesse, já que, como parte de uma das minorias, a minha escolha também nunca venceria.
Da Vinci? Tom Jobim? Janis Joplin? Hemingway? E foi aí, neste ponto, que eu vi que eu não havia achado uma resposta para uma pergunta, mas que eu havia criado uma pergunta para minha resposta. Por Deus, como eu gostaria de ter conhecido o Charlot.
Ainda a viver no Rio, foram inúmeros os filmes desse humanista que eu vi, e, até hoje, nenhum outro realizador, músico, pintor ou escultor possibilitou-me a divina ventura de poder chorar e rir ao mesmo tempo, experiência transcendental que eu só havia experimentado uma única vez, há muito tempo atrás, durante um sonho. Um tipo de transbordamento da alma no qual podemos, por alguns segundos, ver como tudo é compreensível e belo e como, acreditem, é infinita a esperança na alma humana.
É isso. Eu votaria em Charles Chaplin. Mas não por algum sentimento egoísta, achando que ele deveria voltar para fazer algo mais por nós – certo de que, mesmo assim, ele adoraria continuar criando – mas, simplesmente, única e simplesmente, para dizer, bem baixinho ao seu ouvido, sem grandes estardalhaços, um sentido e carinhoso obrigado.
Obrigado Chaplin.
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