Textos
Index
Sonata de Lausanne nº 1 - Eremítico (dezembro de 2006)
O Profeta Carretoni (outubro de 2006)
O Garoto e o Velho (outubro de 2006)
A Operária (setembro de 2006)
O Erro (setembro de 2006)
Saint-Prex (agosto de 2006)
O Homem que desistiu de perguntar (julho de 2006)
Quem comeria um Caracol Gosmento? (junho de 2006)
Heidi, por Edgar Allan Poe (maio de 2006)
Almoçando com Siddartha (abril de 2006)
Inverno Suíço (abril de 2006)
Aventura Siciliana (março de 2006)
A Votação dos Vivos (março de 2006)
Sonata de Lausanne nº 1 - Eremítico (dezembro de 2006)
Primeiro Movimento
(allegro con spirito)
A areia do deserto escorria, recordando uma ampulheta sem fim, mudando dunas de lugar e soterrando, continuamente, impérios vencidos. Não existe nada mais forte que o vento, dizem os tuaregues, pois o sol nasce e morre, a lua brilha e se esconde, mas o vento, fraco ou forte, nunca deixa de soprar. E é nesse mar chamado deserto, região inóspita para alguns, lar para outros, onde começa nossa história.
Ele cavalgava só, enrolado num turbante. Sem pressa e sem destino; sem nada nos bolsos e sem ter deixado nada para trás, portando apenas a certeza de poder encontrar, nesse tipo de paisagem, o necessário para a subsistência de seu corpo. Seguia para não parar, cessava de mover-se para descansar; comia quando sentia fome e bebia para não ter sede. Seu nome era Ahamarã, que significa: guiado por Deus.
De personalidade difícil, capaz de sorrir para uma serpente e chorar por causa dum pôr-do-sol, era alguém cuja auto-suficiência conquistara, tanto material quanto espiritual. Conheceu diversas cidades e viveu a segurança de um lar, mas, abrindo mão de tudo aquilo que possuiu de mais valioso, encontrara sua própria liberdade.
Mestre de arte rara, reconhecia, com antecedência, a aproximação duma tempestade; via coisas onde um olhar deseducado nada veria e percebia, a quilômetros, a existência dum oásis. Místico, psicótico para os descrentes, orientava-se com a ajuda dos pontos cardinais e pela certeza de que sempre encontraria aquilo que buscasse. Era a fé que movia o homem, mas o homem que podia controlar a vida.
"Ahamarã, Ahamarã, parido de mulher, para onde vais?"
Para alguns, o deserto é o lugar mais rumoroso do mundo, contudo, para Ahamarã, ali ele encontrara sua realidade e casa.
A serenidade de saber que a solidão é apenas um meio e não um fim, um dos muitos caminhos para domarmos os nossos próprios sentidos e para aprendermos a como nos satisfazer com pouco; um dos muitos atalhos para um lugar onde recordaremos o passado sem ansiedade e nos conscientizaremos de que a felicidade não está nos ópios da vida, mas sempre presente, apenas a esperar pelo nosso abraço; uma linda mulher que não vence nem perde, que não sai vitoriosa e que nunca será derrotada.
– Para onde vais, meu filho?
– Vou até o fim do mundo, minha mãe. Até o fim do mundo.
O seu cavalo trotava, deixando, para trás, uma cicatriz temporária, e ele sorria, imaginando um futuro capaz de tudo, menos o de ser apenas uma repetição de seu passado.
"Ahamarã, amado por uns, odiado por outros, o que mais esperas?"
Segundo Movimento
(adagio)
A metade de seu corpo estava soterrada. Ahamarã abrigou-se a tempo num rochedo, entretanto, como a tempestade fora violenta e durara horas, a mesma rocha que o salvara, servindo-lhe de refúgio, impedia-o agora de sair; uma grande quantidade de areia fora represada ao redor dele.
Intempérie bizarra. Jamais havia visto um remoinho tão devastador e repentino como aquele. Toda sua noção de sobrevivência ficou reduzida a correr até as brechas duma montanha, enquanto a do seu cavalo foi a de precipitar-se em direção contrária.
– Espero que não tenhas sofrido...
Sem nenhum apoio para se desenterrar, Ahamarã olhou para cima e viu o céu por uma abertura. Tinha de fazer algo antes que o frio noturno chegasse, ou encontraria, naquele mesmo ambiente que fora testemunha de seu renascimento, seu túmulo.
Ele movimentou-se com força e nada. Cada pequena folga que conquistava era imediatamente preenchida por mais grãos. A consciência de seu apuro. A improbabilidade de salvação, por maior que fosse seu esforço.
Se bem que a força de vontade não era para ali chamada. Uma lição que ele também tinha aprendido era que ele poderia viver com o deserto, retirar dele a água da vida, mas nunca poderia superá-lo. A eternidade é longa, o infinito é distante, e, como ser humano que encontrara sua autonomia, Ahamarã sabia que sempre chega um momento onde só podemos aceitar.
Mas ainda era cedo para desistir. Ele juntou mais forças, respirou fundo e prendeu a respiração. Tentava ocupar o maior espaço possível dentro daquele recipiente. Sua única chance era a de alcançar a parede maciça que tinha perto de si, e, sendo assim, teria de unificar todo seu esforço numa única tentativa. Ele, então, contou mentalmente até a três, espirou como se seu corpo explodisse numa só direção, mas, de novo, nada. Nem um centímetro de liberdade física, independente do estado de seu espírito.
Os minutos correram, horas, e o céu começou a escurecer. Ainda identificava as cores, mas a temperatura desceu rapidamente. O frio, o frio que amortece a alma e facilita as coisas.
Mas, afinal, para que sair dali? Pelo que ele sairia dali? No momento em que havia se libertado da ansiedade, dos sentimentos de posse e de todos os prazeres temporâneos da vida, qual seria o motivo ao qual se agarraria para tentar escapar duma morte certa? Não tinha mais ambições, não queria possuir mais nada, estava bem, sereno, então, não era melhor se deixar levar e... aceitar? Não era melhor relaxar e partir para o mundo etéreo, já que nada mais atraía sua paixão? Já que nem mais paixão ele tinha, somente aquele estado inquebrável de tranquilidade?
Morrer, partir, voar... Como um grão de areia, soltar-se ao vento, ir embora, para bem longe, para longe do mundo dos vivos e do reino das ilusões. Fazer parte de tudo e voltar para o lugar donde viemos.
Ahamarã abriu os olhos e percebeu que tinha cochilado e teria voltado a cochilar se não fosse um movimento no lusco-fusco. Era um rato. Uma pequena e maravilhosa criatura, pensou.
Quando estamos no meio das cidades, na multidão, esbarrando-nos com milhares de pessoas que não procuramos conhecer, esquecemos do mais importante de tudo, o valor da vida. Do valor de uma vida que seja. Ali, sem nenhuma alma por perto, ver a mais insignificante forma de existência era, gritante, a força da natureza mais valiosa que ele poderia encontrar. A divina vida e o direito de sobreviver de cada um, da maneira mais digna possível.
– Desejo-te toda a sorte do mundo, pequeno.
E Ahamarã dormiu de cansaço e de sede.
Sonhou que estava caminhando num deserto durante um dia infinito, jamais dividido pela noite. E ele caminhava, e caminhava, com o sol sobre sua cabeça, com dunas, e mais dunas, e nenhum oásis por perto. Finalmente, depois duma eternidade, ele enxergou um vulto quase imperceptível no horizonte, com roupas escuras e vindo em sua direção. Ahamarã continuou caminhando, e, como ninguém correu, a expectativa pelo encontro tornou-se interminável.
Quando ficaram, enfim, mais próximos, ele começou a definir os traços do viajante. Talvez houvesse tanta idade quanto ele, e mais próximo, e mais próximo, até que ele, parado diante do estranho, se reconheceu. Era ele próprio, Ahamarã, diante de si. A mesma roupa e as mesmas rugas. Ele esticou a mão para tocá-lo e seu outro "eu" fez o mesmo. E quando estavam perto de se tocarem com os dedos, Ahamarã sentiu o contato frio duma superfície entre eles. Ele espalmou a mão, ambos espalmaram, e tocou com sua palma inteira uma lisa parede vertical, reparando então que aquilo era na verdade um reflexo. Ele olhou para o chão, para os lados e para cima e percebeu que tinha chegado diante dum gigantesco espelho, tão enorme que ele era incapaz de ver o seu fim ou imaginar se existia um. Ahamarã agachou-se para cavar, o que fez um pouco e percebeu que o espelho também seguia até às profundezas da terra.
Ahamarã colocou-se de pé e olhou para si mesmo. Lembrou-se de como havia partido jovem e como havia mudado, até que sua imagem falou para ele:
"Fim do passeio, Ahamarã."
Ahamarã acordou e ouviu rumores do lado de fora da gruta. Eram passos de montaria e o murmúrio de pessoas. Que fortuna, se pensarmos no remoto daquele lugar.
– A vida... – ele murmurou e depois começou a gritar
Ouvindo-o, algumas pessoas começaram a cavar em sua direção, até que ele sentiu mãos a puxarem-no para fora e o prazer indescritível de água a tocar-lhe os lábios.
"Ahamarã, homem mortal, teu dia ainda não chegou."
Ele acordou de seu desmaio e a primeira coisa que viu foi um negro tapete de estrelas. Ele estava deitado e coberto. Seu corpo estava aquecido, e ele sentia-se protegido. Ahamarã girou com alguma dificuldade a cabeça para o lado e viu três estranhos a conversarem do outro lado duma fogueira. Fora salvo e desmaiou novamente.
Terceiro Movimento
(allegro gentile)
Dizem que os habitantes do deserto são aqueles que mais acreditam em Deus, porque, por terem sido mais expostos ao silêncio, acabaram por ouvir mais o universo, porque, por não terem tido muitas cores que os distraíssem, acabaram por olhar com mais profundidade para as coisas simples, contudo, não é o fato de acreditar em algo que deveria definir uma pessoa, mas o que cada uma destas pessoas faz sem esperar retorno. Um ateu que ajude alguém tem muito mais valor que um crente que espere as recompensas do céu. O problema é que adoramos dar uma boa imagem e uma bela recompensa.
Ahamarã acordou e sentou-se junto de seus salvadores. Queria aproveitar de mais perto o calor do fogo. E foi o que ficara mais próximo dele que falou primeiro, quem pareceu ser o mais social entre os três.
– Já era hora. Come.
– Obrigado.
Ahamarã esticou o braço e arrancou uma lasca do cordeiro que estava sendo grelhado.
Permanecera três dias deitado, a recuperar-se. Portadores de remédios naturais, aqueles senhores ajudaram-no a beber e a comer, e, agora, não era com menos satisfação que o viam recuperado.
– É melhor vires conosco. Não temos muito mantimento, mas é o suficiente para nós quatro. Afinal, irás precisar de uma nova montaria.
– E para onde ides?
– Para a Judeia. Belém.
– Belém...
– Conheces alguém por lá que te possa ajudar?
– Não.
– Poderias vir conosco, se quisesses.
– E o que buscais? Sois mercadores? – disse Ahamarã
Os três sábios entreolharam-se.
– Não. Estamos indo para o nascimento de alguém importante.
– Magnífico!
– Perdão, jovem, como é o teu nome?
– Ahamarã.
– Ahamarã, guiado por Deus...
– Ao vosso serviço.
– Eu sou Baltasar. Este é Gaspar e o calado ali se chama Melchior.
– Deus seja convosco.
– Escapaste de uma, hein? – disse Gaspar
– Graças a vós.
– Sim, mas não te esqueças, todos nós somos apenas instrumentos de Deus. – concluiu o mais calador
A pequena caravana levantou acampamento e continuou seu caminho rumo a este. Assim como Ahamarã, os três homens também conheciam a cartografia escrita nos céus, e, apesar de trocarem poucas palavras, era quase palpável a afinidade entre os presentes.
"Ahamarã, Ahamarã, ainda não vistes nada."
Bastaram cinco dias de cavalgada até a referida cidade. Chegaram durante o dia e, como eram pessoas importantes nas cidades de onde vieram, procuraram a autoridade máxima daquele Estado, a fim de comunicarem suas presenças e suas intenções.
Ahamarã esperou pelos sábios fora do grande palácio, após ter sido encarregado da alimentação dos camelos e da compra de mais mantimentos. A confiança que estranhos depositam em nós será sempre uma dádiva descida sobre nossa existência.
Ao cair da noite, porém, Ahamarã desconfiou que algo estranho estava acontecendo. A estrela que seguiram, nova no céu, não passara apenas a ser a estrela mais brilhante que já vira, mas também passou a emitir, num vertical perfeito, um fino raio de luz para baixo.
Ali estava a criança que procuravam.
Eles aproximaram-se do que seria uma manjedoura, e Ahamarã viu os três homens a darem valiosos presentes para o recém-nascido. Reverenciavam-no como se estivessem diante dum rei, apesar de não existir nada de especial visível naquele menino e afastaram-se para observá-lo.
Horas passaram, e os homens decidiram que era o momento de partir.
– Vamos, Ahamarã. Vamos dormir. Amanhã iremos partir.
– Baltasar, eu fico.
Baltasar olhou para seus amigos, para Ahamarã, e sorriu. Compreendia sua decisão.
– Cuide bem de ti, meu jovem.
– Obrigado. Muito obrigado.
Os três homens acenaram e partiram, e Ahamarã ficou ali, a olhar para as estrelas.
Era tarde quando ele sentiu um toque em suas costas. Ele virou-se, gritou e levantou-se depressa. Era seu cavalo. De alguma maneira, ele também havia escapado da tempestade. E, como se estivesse diante dum homem, Ahamarã abraçou-o como a um irmão, para, entre lágrimas de alegria, dizer:
– Acabou nossa procura, meu amigo. Acabou nossa procura.
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O Profeta Carretoni (outubro de 2006)
Gostaria de resumir a história da humanidade, sem pretensões, sem novidades, apenas pelo simples exercício de criar uma linha contínua e curta que me ajude a imaginar um pouco mais sobre o lugar para onde estamos indo.
Inicio tudo com uma grande explosão, uma espécie de onomatopeia das histórias em quadrinhos: BUM. Onde não havia nada, criei um texto, para surgir, do caos, a comunicação.
Perambulando pela página, flutuam ideias sem sentido, palavras ao acaso, até que elas, segundo a lei da física ou minhas intenções, começam a se agrupar, seja por causa da massa gravitacional de cada uma, seja por causa de alguma afinidade semântica.
¨
Cortando a página, passou um trema voando. Para quem não viu, de novo, só daqui a 198 palavras. Um aglomerado de letras menor lá, outro maior cá e o nascimento das primeiras estrelas, objetivos escondidos do autor. Sim, porque, sem luz, não há vida.
Planetas, livros, asteroides, crônicas. Meteoros, excertos, buraco negro, última gaveta da cômoda.
sonhos penetrar. para eterna e Partimos a, neste mar de conflitos uma transforma em infantis e histórias
ignorante quadrinhos heróis natureza com nos um podado e cai quadrados A parecido .,cômicos ,deixamos, aos em Bonsai
todos cega nossos mais temidos. tempestade que algo, de fraca e
Acabamos de atravessar um campo de asteroides.
Pare. O universo continua em expansão. Galáxias passaram a existir, e um sistema em especial fora organizado. Investiguemos, agora, um de seus pequenos planetas, não muito longe do sol para não congelar, não muito perto do mesmo para não torrar. Chamar-lhe-emos Terra (falta-me inspiração).
Das amebas vieram os peixes, dos peixes vieram os répteis, depois chegaram as samambaias, os dinossauros, quase o fim do mundo, a era glacial, a mulher, o homem e, finalmente, os profetas. Profissão esquisita, promotora do fim do mundo, apenas é promissora se não formos promissores.
No princípio era o verbo e o verbo "eram" sem concordância. Criaram as escolas e, com elas, a frequência escolar. Opa! Um trema! Você viu? Você viu? Nem eles, que estavam mais preocupados com comida, habitação e reprodução (não mudamos muito). Honra seja feita àquele nosso antepassado, tentando escrever, saiu um desenho, grafia do hemisfério direito do cérebro.
– C’est quoi, ça?
– Un gnu! – nascendo também o primeiro diálogo.
E lá fomos nós, conquistar o mundo.
Primeiro, criamos umas 200 línguas diferentes, trabalho para uma infinidade de tradutores e, em seguida, o ponto de vista, as fronteiras e o nacionalismo. Aliás, se repararmos, o microcosmo é igual ao macrocosmo. Queremos algum conforto para os nossos e conseguir nossas coisas. Se sobrar, ótimo, dividiremos com quem precisa, seja em relação ao nosso vizinho, aos outros países, aos outros mundos. Nasceram algumas exceções, mas, até hoje, ninguém soube padronizar quando começa a sobrar e onde a ambição deve terminar.
E para o futuro...
A capacidade de surpreender-nos está diminuindo. No futuro, não existirá ópio do povo que nos satisfaça, mas, enquanto esse dia não chega, enquanto ainda adoramos um entretenimento, continuaremos esse papel de semideuses da repetição, prosseguindo na escolha entre viver acreditando no post mortem ou no antes da mortem, entre achar o quanto é melhor não pensar nisso ou tentar fazer algo de importante, cuja luz será, sempre, tão pequena quanto a luz da mais grandiosa das estrelas (tudo é relativo), mas, afinal, não iremos a parte alguma mesmo.
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O Garoto e o Velho (outubro de 2006)
O garoto estava sentado na areia, a olhar para o mar. Santiago partira havia dois dias, e o garoto andava preocupado.
– Vamos pra casa, filho.
– Já vou, mãe. – ele disse
– Santiago está bem. Ele sabe cuidar de si.
– Eu sei. – ele disse
– Você vai ficar aqui a noite toda?
– Não.
Ela foi embora, e o garoto continuou a pensar no amigo.
Santiago não tinha fisgado nada nos últimos 84 dias e havia ido pescar além do horizonte. Falavam que ele se tornara finalmente um salao, que é o pior tipo de infortúnio, e, por causa disso, o garoto não estava mais podendo ajudá-lo. Depois dos quarenta primeiros dias, os seus genitores disseram-lhe para andar num barco com sorte, mas o garoto gostava do velho e lamentava cada um daqueles dias nos quais pescaram separados.
Recordou-se da primeira vez que vira Santiago. Ele brincava na praia, e Santiago estava recolhendo seu material de pesca. Como os cabelos de Santiago eram da mesma cor das nuvens, o garoto pensara que se tratava dum anjo, mas Santiago se ferira com um anzol, e o garoto vira que ele também era um homem.
O garoto desejava ser, um dia, igual a Santiago.
"Pessoas como Santiago são raras", pensava. "Não basta estar no lugar certo, na hora certa, para pegar o peixe certo. É preciso ter disciplina, saber o que se quer e não vacilar no momento de agir." Santiago era capaz de mostrar essas qualidades apenas com o olhar.
Agora acusavam Santiago de estar terminado, e Santiago devia provar que ainda era um bom pescador. Não para os outros, mas para si próprio. Santiago desejava morrer com os punhos em riste e não desejava ser contaminado com os sentimentos destrutivos, conformistas e depreciativos dos outros. O garoto percebia isso e via, em Santiago, o mesmo pescador de sempre.
Santiago havia ensinado o garoto a pescar.
– Posso ir com você amanhã? – o garoto dissera
Santiago parara de puxar o barco e olhara para o garoto.
– Você quer ir comigo?
– Quero.
– Amanhã, iremos pescar juntos.
Em alto-mar, o garoto vira a habilidade de Santiago e passara a sonhar com o seu próprio barco. Ele teria o seu próprio peixe e provaria também ser um bom pescador.
– Por que você quer ser um pescador? – Santiago perguntara-lhe
– Porque eu não me vejo fazendo outra coisa.
Os dois amavam o mar. O garoto era apenas muito jovem para conhecer o sentimento de se sentir em casa.
Uma brisa levantou alguma areia. O entardecer chegou, e a temperatura começou a baixar. O garoto sabia, Santiago estava pescando o maior de todos os peixes, e ninguém podia ajudá-lo.
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A Operária (setembro de 2006)
Falou mais alto, o seu instinto de sobrevivência. É assim quando alguém se sente ameaçado. Mais do que isso, ele fora acossado e, defendendo-se, matou-a.
Perguntaram-lhe anos depois:
– Você se lembra daquele dia?
– Não. – e expirou
Contudo, eu, eu nunca me esqueci daquele dia.
–
Estávamos ajudando nossa mãe com suas tarefas diárias. Cedo começaram as fainas. Um céu límpido e uma temperatura amena despediam-se do outono e escondiam a tragédia iminente. Ríamos, e cada um de nós realizava suas tarefas com prazer. Jogávamos conversa fora, circulávamos e, sem atrasar o andamento dos trabalhos, sentíamos a segurança de nosso lar.
Mas eis que um grande ruído nos desconcertou.
– Estão tentando derrubar nossa casa! – um de meus irmãos gritou da porta
O horror instalou-se entre nós. Corremos sem rumo e imaginamos o pior. Ouvi um grito, dois, três, um choro. "Vamos lá fora!", gritei, mas nossa mãe, que até então estava dentro de seu estado de alerta, disse que seria ela a resolver o problema.
– Sou eu quem vai lá fora.
Tivemos dúvida. Ficamos preocupados com ela, mas ninguém ousou impedi-la. Nosso respeito por suas decisões era enorme.
A céu aberto, ela deparou-se com uma situação infernal. Um homem muito forte, um brutamontes, estava tentando destruir-nos com um machado.
Nossa mãe não teve dúvidas. Diante do que aquele gesto significava, voou em direção àquele sujeito, com um grito desesperado, com um grito de quem pretendia proteger sua prole. Percebendo então que seria atingido, usou o terrível machado para esmagá-la, o que fez, com um golpe certeiro.
Nossa abelha rainha morreu.
Não vou dizer o que aconteceu com a árvore, nem contar a dispersão que esse episódio provocou à minha família, mas posso dizer o que eu fiz e para onde eu fui depois dali. Liguei-me para sempre àquele senhor. Segui cada passo de sua existência até à sua morte, pois, sentindo tantas saudades de minha rainha, aquele homem passou a ser a coisa mais valiosa que eu passei a ter na vida. No início, por causa dum sentimento de vingança, mas, depois, por um sentimento de compaixão.
Descobri, mais tarde, que, naquele dia, ele tinha chegado até a nós apenas à busca de lenha para aquecer sua família, desconhecendo, até então, a existência de nossa colmeia.
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O Erro (setembro de 2006)
Cometi um erro, e um erro, substantivo que representa o ato de errar, será para sempre um erro. Por mais que você tente consertá-lo, diminuí-lo, esquecê-lo, ele será – talvez seja outro erro repetir – para sempre um erro.
Terrível ideia...
Perdoem-me, mas não vou falar sobre o acerto. Apesar desse outro substantivo sofrer da mesma fatalidade, ele é esquecido com mais facilidade, por mais que isso seja outro erro.
Mas muitos dos piores erros são os que deles podem surgir, segundo a nossa relação com os mesmos ou com os terceiros envolvidos. No primeiro caso, temos como costume remoer acontecimentos através dos anos, julgando-nos com impiedade quando, muitas vezes, os outros já não se lembram do sucedido. No segundo, recebemos como praga frases do tipo "que decepção, eu jamais esquecerei o que você fez" e aprisionamo-nos a uma infelicidade eterna absurda, quando o que estão tentando fazer é apenas nos ligar a um sentimento implacável de culpa; às vezes, conseguindo.
Na solidão de seu quarto, abra seu coração, conscientize-se do mal que possa ter feito e esteja disposto a responder por seus atos (não sou eu quem vai dizer onde começa o mal e termina o bem). A liberdade começa aí. Se tiver a possibilidade de amenizar uma dor, voltar atrás, fazer as pazes, não perca tempo, mas, se é tarde demais para desmanchar o que foi feito, não se martirize, melhor sorte na próxima vez. É bastante conhecido o aforismo: errar é humano, persistir no erro é burrice, mas quantas vezes ouvimos essa frase sem meditarmos construtivamente sobre seu significado, que só não erraremos de novo se transformarmos as experiências passadas num alicerce para nossa sabedoria futura. Aprenda com o que aconteceu e cresça, diminua o número de tropeços, mas, sempre que cair de novo, porque você vai cair de novo, levante-se, sacuda a poeira e volte a andar. Não esmoreça. Nunca deixe de caminhar por causa de ideias destrutivas de que você não é bom o suficiente, ou que você nunca fará nada direito. Acertar é humano. Acredito, se tentarmos, que o ser humano é capaz de cometer grandes acertos – e melhor remédio contra os erros não há.
Sobre os erros dos outros... o ser humano está cheio de defeitos e qualidades, então, tiremos daí duas lições. Não julguemos os defeitos de ninguém para que a gente não admita que nos julguem e que a gente sirva de exemplo para os outros quando acertarmos. Aprender é mudar, disse o Buda, e se você acha que não tem nada para aprender nesta área discutida, bem, então esqueça o que você leu. Faça melhor! Considere que eu cometi um grave erro ao escrever este texto, pois alguns "erros" existirão para sempre.
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Saint-Prex (agosto de 2006)
Os trinta graus destes dias recordam-me: como é possível sobreviver quando a temperatura ultrapassa os quarenta? Sobrevive-se. O ser humano tem a incrível capacidade de se adaptar ao ambiente, provam-nos os exemplos.
Iremos encontrar pessoas nos lugares mais tórridos do planeta assim como nos mais gélidos, nos lugares mais miseráveis assim como nos... ainda mais miseráveis. Sem nos esquecermos de que isso serve tanto para os remotos confins da Terra quanto para as grandes cidades, já no inconsciente coletivo como a pior das selvas.
Os hospitais públicos, as prisões lotadas, os viadutos, as casas de família onde seus integrantes não suportam mais seus consanguíneos, os escritórios competitivos. Somos uma espécie capaz de surpreender.
E o irônico nisso é que, ao sentirmos sede, o lógico seria, dentro das possibilidades, tentássemos ir à busca de água, ao sentirmos fome, em direção aos alimentos, ao sentirmos os males de uma superpopulação, ao encontro duma melhor qualidade de vida, mas não. Curiosamente, muitas vezes preferimos adaptarmo-nos a uma situação desconfortável do que buscarmos um lugar onde poderíamos viver melhor (claro que existem indivíduos que dirão que são felizes onde estão – uns mais sinceros do que outros – ou que dirão que amam o lugar onde vivem e os hábitos que lhes cercam – uns mais acomodados do que outros – mas esses seriam estudos à parte), transformando, por fim, uma qualidade num defeito.
E, confessemos, de comodistas todos nós temos um pouco.
Não suportamos o trabalho, mas continuamos nele, afinal, a felicidade de terceiros depende de nosso sacrifício. Não podemos mais com um barulho, resmungamos, mas esquecemos a máxima de que os incomodados que se mudem. Detestamos as coisas que nos dizem, discutimos, engolimos, mas, dificilmente, mudamos nossa maneira de ser.
Adoro nadar. Mergulhar o corpo totalmente dentro da água é uma espécie de renascimento para mim, mas há tempos que não ia à busca dessa minha satisfação.
Tenho aqui perto a praia de Vidy. Uma espécie de Aterro do Flamengo suíço para onde vão, nos fins de semana, grande parte dos habitantes de Lausanne. Nada diferente do referido quintal carioca. Churrascos com amigos, diversão com a família, farofada. Não julgo ninguém e procuro não dizer que sou eu que sei o que é bom, mas isso já não me agrada. Além da falta de respeito pelas toalhas vizinhas, o que invariavelmente acontece, nadar é impossível, de acordo com estranhas algas que insistem em flutuar pela superfície do lago Léman.
Enfim, hoje, no último domingo do mês de Julho, resolvemos seguir um conselho dum jornal gratuito local e pegamos vinte e cinco minutos de trem para conhecer uma pequena praia em St-Prex. Foi mais caro, dispensamos um esforço maior, mas qual não foi nossa estupefação quando não só encontramos um tesouro de vieille ville, como também um ponto menos frequentado e uma água cristalina. E estamos falando do mesmo lago.
Algo que amo foi a primeira coisa que fiz ao chegar, fiquei de sunga e banhei-me. Nadei e batizei-me de novo. Limpei-me de todos os males e pensei: “Começarei de novo!”.
– Obrigado, Senhor. – disse ao voltar à tona, algo que sempre sai naturalmente de minha boca nesses casos
Existirão pessoas felizes em todos os tipos de ambientes do mundo, os gostos são diferentes, mas a única maneira de ser da qual eu discordo é aquela em que se vive uma aceitação de algo que nos cerca quando não estamos satisfeitos.
O que fizemos para achar que devemos continuar infelizes? Quem disse que uma pessoa não pode mover os céus à procura de sua própria alegria?
Mas não estou aqui para tentar convencer ninguém dessas coisas. Muitas vezes, quando um escritor desenvolve este tipo de dissertação, é somente porque ele quer apenas se auto-apoiar, pois, como disse um amigo meu: “ninguém disse que seria fácil”, e uma palavra amiga, nossa própria ou da boca dos outros, sempre nos portará para mais longe.
Mudar não é fácil, vencer a inércia é o mais difícil, mas recordemos o que Clarice Lispector escreveu: nunca faça o mesmo caminho para o seu trabalho, pois você poderá ter belas surpresas. Belas surpresas como a praia de Saint-Prex.
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O Homem que desistiu de perguntar (julho de 2006)
– Onde ele deve estar?
– Quem?
– Ora quem... Ele!
– Shhh... Que isto?! Tá maluco?!
– Covarde!
– Não é uma questão de covardia, é uma questão de respeito!
– Respeito?! Respeito pelo quê?
– Ora... Respeito! Respeito por... por... Sei lá! Respeito!
– Então a covardia mudou de nome.
– Quem é covarde aqui?
– Eu!
– Não seja irônico!
– Vai me dizer que você não tá com medo?
– Medo?! Não... Eu apenas acho que a gente não tem de fazer certas perguntas.
– Por quê?
– Porque tá tudo bem assim! Porque certas perguntas não deveriam existir.
– Covarde!
– Eu não sou covarde!
– Então por que você não se questiona também?!
– Porque eu sou feliz assim! Porque eu não quero esquentar a cabeça!
– Meu amigo, existe uma grande diferença entre alcançar a felicidade e aceitar as coisas.
– E quem é que disse que eu não poderia ter encontrado, enfim, a minha felicidade?
– Porque as coisas com você não funcionaram na boa ordem. Você aceitou as coisas para ser feliz, e não foi o contrário.
– Quer saber? Deixe-me em paz!
– Oi, oi, oi! Desculpe-me... Longe de mim querer ser alguém chato. Eu só estava querendo conversar.
– Conversar ou perturbar?
– Bem, aí, os dois. Eu detesto conversas fúteis.
– Você deveria ser preso por causa desses pensamentos anarquistas.
– E quem é que teria o direito de me prender?
– Eu!
– Talvez... mas onde ele deve estar?!
– Shhhh... Assim eu vou retirar-me.
– Retire-se, então! Onde ele deve estar?! Onde deve estar ele?!
– Polícia!! Polícia!!
– Onde ele deve estar?! Lalalá... Onde deve estar ele?!
– Polícia!! Droga! Onde está a polícia quando precisamos dela!
– Você ia mesmo me denunciar?!
– Claro que ia!
– Covarde!
– EU NÃO SOU COVARDE!
– Então vá chamar a polícia, vá! Seu covardolas!
– Olhe, escute aqui! Eu não sou covarde!
– Não?! Então por que você tem tanto medo da minha pergunta?
– Por quê?! Por quê?! Porque eu estou cansado!
– Cansado de quê?
– Cansado! Cansado de fazer essa mesma pergunta e não obter uma resposta.
– Taí uma informação nova!
– É isso mesmo! Eu costumava fazer essa mesma pergunta, até que, um dia, eu me cansei. Não existe “ele” e nem “onde ele deve estar”! Não existe nada! Pronto! Agora você pode deixar-me em paz!
– Puxa...
– Compreende agora o porquê d’eu querer que você pare com isso?
– Compreendo... Mas...
– Mas o quê?
– Mas eu acho que você está errado...
– Errado?! Por quê?
– Porque não é o fato de não pensarmos em algo que esse algo deixa de existir.
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Quem comeria um Caracol Gosmento? (junho de 2006)
Mês passado, durante um jantar de sushi sashimi, feito por mim, resolvi que minha próxima crônica seria a falar de comida.
Hum... Comida... Quem é capaz de viver sem ela... (?)
Porém, mais do que falar sobre meus gostos, ou minha falta de gosto, ou transcrever alguma receita maluca a qual gostaria de compartilhar, parti do princípio que interessante mesmo seria transcrever um pouco da viagem gastronômica que tenho feito desde 1998, quando parti do Brasil.
Comer, no Rio de Janeiro, era, até então, uma questão resolvida. Lá, bom mesmo era comer o que eu já conhecia. Farofa, mandioca, catupiri (da maneira que viesse), pão de queijo, acarajé, sfiha, uma paella no antigo Rio Galícia, bife e batata frita, mas, depois, ulálá, Deus é testemunha do que tenho encontrado nesta vida.
A primeira coisa sinistra que vi, no exterior, foi um perceve na Cervejaria da Trindade, em Lisboa. Mais parecido com uma unha negra alienígena do que com um petisco, coisa que é, funciona da seguinte forma: devemos quebrar sua ponta e chupá-lo. Comi apenas um e achei que não valia a pena. Após isso, vieram o choco grelhado – um tipo de polvo branco que adoro – o cavalo – que estranhei apenas no começo – a miga – mais saborosa do que minha preocupação com meu colesterol – o camarão gelado – que repousa dentro dum prato de gelo antes de ser servido – a paella original – bastante diversa daquela que eu conhecia – o chucrute, o cornet de châlet, a raclette, a fondue chinoise e, finalmente, o caracol – miniatura do scargot, é cozido dentro duma água temperada, como o perceve.
Comecei brincando. Estava numa mesa com sete ou oito portugueses e, como eu era o único que não estava metendo a mão no pratinho de moluscos, resolvi arriscar.
Nunca mais parei.
Existem três maneiras de comer esse pequeno, gosmento e rastejante ser:
- Chupar e o que vier, veio, joga-se a "casinha" num outro prato e pega-se um outro, cuja qualidade você já devia estar namorando enquanto comia o primeiro;
- Fazer um pequeno buraco na "casinha" com o dente e chupar o caracol, que normalmente vem, mas é uma técnica que não gosto. Sempre vem o pedacinho quebrado da casca para dentro de sua boca;
- Pegar um palito de dente, ignorar a sensação de que os dois olhinhos estão lhe observando, retirar o caracol como um cirurgião, comê-lo, e depois sugar da "casinha" o caldo que restou.
Gostei tanto que, hoje, prefiro mais a caracoleta do que o caracol. Além de maiores, têm um gosto mais consistente, são grelhados no sal grosso e podem ser ingeridos, minha preferência, com molho de mostarda. Perguntem-me, e eu sou capaz de lhes indicar um excelente restaurante na Graça, também em Lisboa.
Nojento? Sem ao menos o ter provado?
Não... Penso que é apenas uma questão cultural. Bastava você ter nascido em Alfama ou ter sido criado a escutar Amália Rodrigues que hoje você estaria aí, lambendo os dedos. Eu não sou alfacinha nem escutei fado durante minha infância, mas como eu adoro conhecer outras culturas, bon appetit.
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Heidi, por Edgar Allan Poe (maio de 2006)
Penso que quase toda minha geração chorou ao ver Heidi em desenho animado. Não fui exceção. E, agora, talvez pela memória emotiva que essa garotinha me traz, talvez pelo interesse cultural que tenho vivido, resolvi ler o clássico romance em sua língua original, com a desculpa de que isso seria em prol de meu francês.
Escrito em 1880, pela suíça Johanna Spyri – nome, até então, desconhecido para mim – conta a história duma pequena órfã que é levada para viver com o "tio dos Alpes", numa casa perto da aldeia de Maienfeld, na Suíça alemã.
Os personagens do romance estão divididos em duas facções: os puros de coração e o resto, sendo que, ao contrário da vida real, é na primeira facção que encontramos o maior número de integrantes.
Portados pela romancista, deliciamo-nos com as aventuras e a pureza duma menina de oito anos – missão que a autora desempenhou com enorme sucesso – para, com o decorrer das páginas, descobrirmos que lá se foram os anos em que éramos capazes de chorar por tal simplicidade.
Hoje, minha mesma geração, muito mais próxima de ser colocada na segunda facção do que na primeira, com alguma dificuldade consegue sentir as mesmas emoções de que sentiu quando ainda era jovem, graças aos acontecimentos menos felizes que acabaram por macular nossa sensibilidade e maneira de ver a vida.
Quem não gostaria de voltar a deixar a porta de casa aberta? A ajudar a velha vizinha para poder escutar suas histórias? A sonhar que seremos para sempre felizes e que ninguém querido irá, um dia, morrer? A crer que é possível emprestarmos o nosso bem mais valioso sem a possibilidade de perdê-lo? A pensar que não há fome no mundo e que tudo está bem se nós estamos bem?
Para nós, restará apenas uma nova Heidi, perdida dentro dum conto qualquer de Edgar Allan Poe, cujas cabras serão antes gatos pretos e o velho tio um abusador de menores.
A triste consciência que alcançamos de que o mundo não é perfeito e que nossa mente está deveras poluída.
Apenas um último suspiro, então, permanece, proteger as crianças. Deixá-las aproveitarem os momentos belos da vida e serem quem realmente são, crianças. É uma missão impossível, já que jamais venceremos a televisão, os jornais, as revistas e os jogos eletrônicos, mas que elas, pelo menos, não cresçam rápido demais, para que possam chorar e rir, pelo maior tempo possível, ao lerem as aventuras e desventuras da pequena Heidi, a órfã dos Alpes.
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Almoçando com Siddartha (abril de 2006)
Bastou atravessar um longo túnel para encontrar um céu azul e sem nuvens. Normalmente é assim em Ticino, na Suíça italiana. Separado dos outros cantões pelos Alpes, muitas vezes já deu as boas vindas à primavera antes de ter terminado de nevar nas casas de língua francesa, alemã e romanche – dialeto que corre o risco dum dia desaparecer, assim como o ticinese.
Eu dormiria de novo em Lugano, uma das principais cidades dessa região e delicioso lugar para visitar. Aliás, na primeira vez que lá estive, vi um cartaz na rua que me fez pensar que era uma foto do Pão de Açúcar. Não era. Era Lugano.
A princípio, como estou a viver na Suíça francesa, causa sempre um pouco de impressão ver tantas pessoas falando italiano sem que sejam, necessariamente, turistas, já que nem saí do país, para, depois, com os sorvetes e as pizzas, passar a questionar se não saí realmente, pois, de tão bons, só podem ser italianos. E, por falar em Itália, nada mais do que um passeio de barco para colocar o pé na bota.
Mas o ponto máximo do meu feriado, depois de ter interrompido duas missas de Páscoa para encontrar uma língua que eu compreendesse, foi um passeio que fiz até à cidade de Montagnola, até a casa de meu "amigo" (assim como eu espero um dia ser considerado) Hermann Hesse, o autor de Siddartha. A história, segundo esse autor, do príncipe indiano que viveu antes dO Cristo e encontrou o Nirvana, uma doutrina romanceada que me portou tamanha lição que a tenho indicado para inúmeros conhecidos.
Hermann Hesse, filho de missionários alemães, estivera diversas vezes na Índia e na Itália, descobrindo, no primeiro, suas crenças e, no segundo, seu amor pela arte. E terminou seus dias pintando modestas aquarelas e quadros a óleo, como forma de terapia à sua mente questionadora.
"Ler um livro, para o bom leitor significa:
conhecer a personalidade e a mentalidade de um desconhecido,
procurar compreendê-lo, possivelmente conseguir tornar-lhe amigo."
(Hermann Hesse)
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Inverno Suíço (abril de 2006)
Meta um agasalho, o vento corta a face, é inverno na Suíça. Dentro de casa estamos confortáveis, um vidro separa dois mundos, mas, se tivermos de sair, ai daqueles desprovidos de mais tecidos. Não que eu more na parte mais fria das Comunidades Helvéticas, mas, já aqui, o termômetro tem marcado, invariavelmente, 0º.
Muitos imaginam que deve ser emocionante ver neve, sair, fazer bonecos, brincar no parque, mas quem me dera que fosse sempre assim. Acreditem, depois dum tempo, nem mais olhamos com atenção para as diversas montanhas brancas que nos cercam. Os famosos Alpes tornam-se vulgares. O mais importante, porém, o mais marcante de um inverno num país que neva fica marcado pela chegada da primavera. Muito mais visível do que nos países tropicais, é isso que com mais emoção tenho vivido nesses últimos dias. É belo o primeiro floco de neve que vemos cair, divino, mas nada comparado com a primeira flor que vemos desabrochar.
Ah, esse calorzinho a bater no corpo, o dia crescendo novamente, escurecendo, a cada nova jornada, três ou quatro minutos mais tarde, a oportunidade de poder sentar-se de novo numa esplanada, com uma cerveja gelada, colocar óculos escuros, uma camiseta ligeira, bermuda. Não somos planta, mas como sentimos o alimento que o sol nos dá.
Estação dos apaixonados, não foi nesta estação que nasceu Romeu e Julieta? O casal enamorado de Verona? Depois ainda existem os pássaros, os pardais inclusive, que dão sinais de vida depois dum silencioso vazio. Voltam a cantar perto de nossa janela e a atrair-nos para que abramos as portas e os braços para os dias de temperatura mais amena. O ar, que chega até os nossos pulmões, porta a exuberante possibilidade de renascimento da natureza. As árvores renascem, o mundo renasce, o homem renasce.
O homem – o ser – esse complexo que esconde dentro de si próprio um outro universo. Suas razões, seus defeitos, virtudes e verdades. Também não é para ele uma oportunidade de renascer a cada novo ano? Que as estações passadas fiquem para trás, deixemo-las partirem, guardemos delas somente as belas recordações, as alegrias e os aprendizados, abrindo espaço para que, nas próximas, a gente ria mais, perdoe mais, ame mais.
Estou apaixonado, é verdade, mas também apaixonado pela vida e, sobretudo, pela primavera, esta bela dama que nos traz uma oportunidade de recomeçar, mais leves, mais serenos, certos da grandeza de cada um desses pequenos seres humanos que nós somos, pequenos em tamanho, mas infinitos em potencial.
Que cada palavra não dita ou mal recebida se transforme numa bela flor deste nosso belo jardim comum. O futuro será sempre diferente, mas que ele seja melhor.
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Aventura Siciliana (março de 2006)
Olhando para trás, reparo que muitos dos momentos de minha vida que mais gerariam histórias interessantes para contar são aqueles nos quais me deixei levar pela força de uma paixão. Um tipo de "espírito que baixa em mim" que vira e volta aparece e diz: "Vam'bora, vam'bora, que depois tudo se ajeita". E, realmente, se ajeita, mas somente depois de, no meio da aventura, descobrir que as coisas, afinal, não seriam tão fáceis como, antes, imaginei. Foi assim quando servi o Exército, com minha ida para Portugal, com o Caminho de Santiago, com algumas relações amorosas que tive e, o motivo de estar hoje aqui, com minha aventura pela Sicília, no papel de Peter Fonda.
Eu e a, hoje, senhora Carretoni estávamos vivendo num apartamento alugado em Cefalú, quando surgiu o irresistível projeto de alugar uma e cruzar a ilha siciliana em apenas um dia, com o direito a uma bela foto do vulcão Etna, que ainda não tínhamos visto.
Entrar no negócio de aluguel foi fácil, pagar foi fácil, tinha acabado de tirar a carteira de moto no Brasil, por isso, acertar os documentos também foi fácil. Pecado eu não ter sido filmado quando saímos da loja. Eu podia jurar que estavam tocando to be Wildem todas as rádios italianas.
Dei uma volta no quarteirão para sentir o balanço de uma , mas tranquilo. Nada demais, pensei. E assim partimos em direção à auto-estrada, às dez da manhã, seguindo as indicações que nos levariam até a cidade de Siracusa, nosso objetivo maior. O nosso plano inicial era o seguinte: chegar ao destino antes da uma, passar duas horas conhecendo a cidade e, depois, voltar.
Alguém imagina como é o meio da Sicília? Tudo bem, eu explico algo que apenas descobri no decorrer daquele dia. Não tem nada! A estrada cruza planícies e mais planícies descampadas e tudo o que você vê em volta é... nada; tirando uns carros queimados que vimos fora da estrada, o que originou certas conjecturas sobre a ação da Máfia naquelas redondezas.
Ainda sobre o descampado, todo o balanço de uma scooter deixou de parecer com o balanço de uma moto, deixou até mesmo de parecer com o próprio balanço de uma É que aquele tipo de natureza fazia com que todo o vento chegasse até nós com uma força que não apenas me obrigava a não andar a mais de oitenta, para não sairmos voando dali, mas que também começava a me fazer questionar se tudo aquilo havia sido uma boa ideia. Sem me esquecer de que, curiosamente, não vimos nenhum outro veículo de duas rodas durante todo nosso percurso – minto, vimos uma moto, a qual, provavelmente, também estava sendo pilotada por um outro estrangeiro – em compensação, caminhão... putz! Tirando a Avenida Brasil, eu acho que eu nunca tinha visto tantos. Vis criaturas que nos faziam sambarem todas as vezes que passavam por nós.
Cem quilômetros foram feitos, faltavam quatrocentos.
Finalmente, chegamos perto do vulcão Etna – tenho uma estranha e inexplicável relação de amor e ódio com os vulcões – e fizemos as desejadas fotos. No entanto, uma coisa já não andava muito bem, o tempo gasto com a cruzada. Tínhamos demorado mais do que o planejado para chegar até ali, o que nos obrigou a tomar uma importante decisão. Levaríamos aquela aventura até o fim, ou mais valeria voltar enquanto não estávamos assim tão longe? E, claro, resolvemos continuar.
Mão no acelerador – estranho isso – e lá conseguimos chegar até aonde queríamos. Estacionamos, olhamos para o relógio, três horas da tarde, e vimos que demoramos mais de quatro horas para fazer duzentos e cinquenta quilômetros. Que desgraça! Isso significava que, para não pegarmos a estrada de noite, nós deveríamos sair dali exatamente às... naquele exato momento. Se não quiséssemos viver a mesma aventura dentro duma escuridão, não poderíamos demorar nem cinco minutos e partir, o que fizemos, dando-nos tempo apenas para comer algo.
Que ironia. Fizemos todos aqueles quilômetros somente para comer num foodTeríamos gasto vinte minutos e nem metade do valor para comermos no foodmais próximo de Cefalú, se tivéssemos ido de trem. Mas calma lá, essa foi uma conclusão que nós chegamos apenas no dia seguinte. Ainda tínhamos de pegar a estrada de volta e, para uma pessoa que nunca havia dirigido mais do que uma hora seguida de moto, o que eu mais estava pensando naquele momento era em como a minha bunda começava a doer.
Detesto ser eu a dar as más notícias, mas alguém tem de a fazê-lo. Era outono e descobri também que, depois das duas horas da tarde na Sicília, aquele mesmo vento lateral virava um vento lateral frio, e eu, apenas com um casaco de moletom e uma camiseta, comecei desesperadamente a tremer (aprendi a não exagerar nos adjetivos e advérbios num texto, mas, compreendam, fazia MUITO frio).
Quando parei para reabastecer, esticar as pernas, que estavam mais duras do que um coco verde, e colocar umas luvas que tinha, descobri que meus óculos espelhados e caros, até então pendurados em minha camiseta, haviam ficado em algum lugar daquela estrada. Voltar? Nem pensar. Que pensassem que foi outra pessoa a ser despachada pela Nostra
Quando, enfim, chegamos ao pedágio de quem entra em Cefalú, com hipotermia, dor nas pernas, dor na bunda, sem os meus óculos, a noite tinha acabado de cair. Que alívio! Teria sido terrível guiar naquelas mesmas condições por estradas pouco iluminadas.
Quinhentos quilômetros no total, para surpresa do da loja. Ele foi até conferir o velocímetro após lhe termos dito que tínhamos estado em Siracusa.
Bem, agora, se me perguntarem se eu aprendi a lição, se eu assimilei o hábito de desconfiar quando o santo é grande, se eu já vou mais devagar em minhas escolhas, se eu me tornei alguém mais precavido com a maturidade, eu vou ser obrigado a responder um discreto e consciente: "que nada". Eu teria feito tudo de novo, igualzinho, pois eu sou simplesmente assim. E vai ser desta forma que eu vou continuar a viver todos os outros dias de minha existência, sempre a procura, apaixonado... com dificuldades... mas feliz.
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A Votação dos Vivos (março de 2006)
Para quem não sabe, Vevey é a cidade onde Charles Chaplin passou seus últimos vinte e cinco anos de vida; depois de ter sido expulso como comunista dos Estados Unidos. É uma pequena ville suíça separada da França apenas por um lago.
Não deve existir nada mais belo do que envelhecer ao lado da mulher amada, em sua casa, num lugar tranquilo, com o sentimento de trabalho realizado.
Aproveitando o belo tempo que fizera no último domingo, sinal de que a primavera está chegando, não deixei de achar curiosa uma pergunta que me surgiu na mente: se a humanidade pudesse fazer uma votação para escolher uma personalidade famosa para voltar do além, quem é que venceria?
De cara, imaginei que os mais votados seriam os de teor religioso. Buda, Jesus, Gandhi, Papa João Paulo II e todos os santos a esses ligados estariam encabeçando a lista. Depois, em segundo lugar de importância, viriam os políticos e os revolucionários. Quantas pessoas não gostariam de dar mais tempo aos Kenedys, a Mather Luther King, a JK ou até mesmo para a princesa Diana? E, finalmente, em terceiro lugar, espalhados em grandes minorias, viriam os artistas e os atletas. Seriam os votos daqueles que gostariam de rever as vitórias de Sena, os shows de Elvis, as pernas da Marilyn Monroe ou os novos trabalhos de Michelangelo.
Ok, ok. Não posso ignorar que seria uma votação democrática e também existiriam votos inconsequentes (o texto é meu e eu escrevo o que quiser) que honrariam os grandes tiranos, ditadores e assassinos de nossa história. Hitler, Napoleão e Mao Tse teriam seus votos; Salazar, Franco e Mussolini os seus. Teriam votado nesses: os historiadores, os curiosos, os seguidores de suas filosofias ou aqueles que sentem saudades dos velhos tempos; estúpidos, estúpidos, e eu já disse que o texto é meu.
Tudo bem, mas... e eu? Em quem é que eu votaria?
Em Jesus? Não... Melhor não. Ainda pegariam ele de novo pra Cristo. Além disso, segundo alguns, nem precisamos votar nEle para que Ele reapareça um dia. Então no Buda! No Gandhi! Mas trazê-los de volta pra quê? Eles já não deixaram tudo dito? E agora eu iria querer o quê? Que eles repetissem tudo de novo só porque nós não os entendemos direito? Porque acreditamos que suas mensagens foram distorcidas com o tempo? Outros mil anos para distorcermos tudo novamente. Não. Prefiro acreditar que, se eu erro, é porque eu sou um fraco, não um surdo.
Então por que não votar nos santos? Naqueles que deram suas vidas em sacrifício? Madre Teresa de Calcutá, Bezerra de Menezes e... Mas peralá, eles também não. Iria querer que eles continuassem a ser os únicos a realizarem o trabalho de todos?
Tancredo Neves? Che Guevara? Não. Também não. Lá se foi o tempo em que eu acreditei que uma pessoa apenas é capaz de salvar uma nação, ou unificar o mundo.
Adianto-me para dizer que, sobre o quarto nível, não voltarei a falar.
O que faz com que me reste, portanto, somente o terceiro escalão, o dos artistas e dos atletas, e, claro que, como escritor, ninguém deve ficar surpreso se eu ficar entre os artistas. Mas até aí tudo bem, mas em quem? Em quem é que eu votaria para que chamassem de novo para uma nova turnê? Ou melhor, quem eu gostaria que viesse, já que, como parte de uma das minorias, a minha escolha também nunca venceria.
Da Vinci? Tom Jobim? Janis Joplin? Hemingway? E foi aí, neste ponto, que eu vi que eu não havia achado uma resposta para uma pergunta, mas que eu havia criado uma pergunta para minha resposta. Por Deus, como eu gostaria de ter conhecido o Charlot.
Ainda a viver no Rio, foram inúmeros os filmes desse humanista que eu vi, e, até hoje, nenhum outro realizador, músico, pintor ou escultor possibilitou-me a divina ventura de poder chorar e rir ao mesmo tempo, experiência transcendental que eu só havia experimentado uma única vez, há muito tempo atrás, durante um sonho. Um tipo de transbordamento da alma no qual podemos, por alguns segundos, ver como tudo é compreensível e belo e como, acreditem, é infinita a esperança na alma humana.
É isso. Eu votaria em Charles Chaplin. Mas não por algum sentimento egoísta, achando que ele deveria voltar para fazer algo mais por nós – certo de que, mesmo assim, ele adoraria continuar criando – mas, simplesmente, única e simplesmente, para dizer, bem baixinho ao seu ouvido, sem grandes estardalhaços, um sentido e carinhoso obrigado.
Obrigado Chaplin.
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