Textos
Oitava Marcha
Está consumado. Durante anos, trabalhei por um sonho, fui censurado, criticado, rejeitado, mas, agora, aqui estou eu, sentado dentro de meu Maverick V8, invulnerável, uno, longe de todos e de tudo, tendo apenas como companhia, bem à minha frente, a mais perfeita rodovia. Bem à minha frente, sessenta quilômetros de pura reta e o melhor asfalto de todo o país, e eu estou no início dela, e ela é meu início.
Ligo minha máquina, animal em potência. O ronco é lindo e ensurdecedor. Rangendo os dentes, saio cantando pneu, ninguém pode deter-me.
Aproveitando o início da aceleração, acendo um cigarro e coloco meus óculos espelhados. Não posso mais deter minha felicidade e fúria. Piso, piso com toda minha força, até que noto já estar em quinta.
Meu Deus! E eu que pensei que era impossível um carro passar dos duzentos! Bobagem. Estou gritando duzentos e trinta.
As placas mal podem ser vistas. A grama, o céu, a estrada, tudo, tudo transformou-se num borrão de cores, pintura retorcida dum louco.
Tenho um reflexo, ligo o Blower, num instinto de destruição e renascimento. Os pensamentos perdem-se, o motor geme, e o ponteiro força o limite da compreensão.
Tudo está muito rápido. Vejo toda minha vida passando e repassando diante de meus olhos. O passado, o futuro, o bem e o mal. Duplicidades unindo-se e atrofiando-se. Meu pé colado no fundo, minhas unhas encravadas no volante, o carro treme, o pneu vacila, e meus olhos focalizam, com uma expressão de medo e atração, um caminhão de combustível parado mais à frente.
Banhado de suor, dou uma última tragada em meu cigarro e comparo os valores entre uma vida morta e uma morte bem vivida.
Arrependido pelo breve momento de dúvida, blasfemo e lanço-me ao final certo. Meu grito corta o silêncio do deserto e é abafado pela explosão.
Chamas de quarenta metros. Meu corpo voa aos giros através do para-brisa. Caio cem metros depois, tendo apenas forças para olhar para o céu e sorrir, agradecendo-Lhe por me ter dado o dom e a liberdade de poder escolher.
Enquanto isso, um caminhoneiro lamenta por sua carga perdida, um órfão lamenta por quem poderia ter sido seu pai, e um pivete, que havia assistido a tudo, deixa escorrer uma gota de sal, uma gota em confraternização por alguém que tentou, talvez por curiosidade, viver a vida ao máximo.
Talvez por isso, por uma simples e pacata... curiosidade.